PLANO DE TREINO
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Sem ser preciso puxar muito pela cabeça, consultar fotografias, mensagens antigas ou tentar reconstruir mentalmente aquele dia. De repente, conseguimos visualizar o local, lembrar-nos de quem estava connosco, do que estávamos a fazer e, em alguns casos, até da televisão ligada ou da pessoa que nos deu a notícia.
Passaram-se 25 anos desde aquele 11 de setembro de 2001, mas para quem viveu aquele dia com idade suficiente para o recordar, a memória parece continuar estranhamente presente.
A própria pergunta tornou-se quase uma espécie de ritual coletivo. “Onde estavas quando soubeste?” é uma pergunta que atravessa gerações e que continua a ser feita sempre que se fala dos atentados que mudaram para sempre a história contemporânea.
Mas afinal, porque é que nos lembramos tão bem daquele dia?
Na manhã de 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados nos Estados Unidos. Dois deles atingiram as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Um terceiro atingiu o Pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, depois de os passageiros e tripulantes tentarem recuperar o controlo da aeronave.
Os acontecimentos foram acompanhados em direto por milhões de pessoas através da televisão e rapidamente se transformaram numa notícia de dimensão global.
Quase 3.000 pessoas morreram nos atentados… Mas o impacto daquele dia não ficou limitado às pessoas que estavam fisicamente nos locais atacados. As imagens transmitidas em direto, a dimensão da tragédia e a sensação de estarmos a assistir a algo que estava a acontecer naquele preciso momento fizeram com que milhões de pessoas, em diferentes partes do mundo, se sentissem testemunhas daquele acontecimento.
Em Portugal, muitas pessoas estavam na escola, no trabalho, em casa ou simplesmente a começar mais um dia normal quando receberam a notícia.
E é precisamente aqui que começa a explicação para a força desta memória.
Na psicologia existe um conceito chamado flashbulb memory, ou memória fotográfica/“memória de flash”. Mas, apesar de o nome poder dar a ideia de que o cérebro tira uma espécie de fotografia do momento, o conceito é um pouco mais complexo.
O termo “flashbulb memory” foi introduzido pelos psicólogos Roger Brown e James Kulik, em 1977, num estudo sobre a forma como as pessoas recordavam acontecimentos surpreendentes e emocionalmente marcantes. Os investigadores procuraram perceber porque é que certos acontecimentos pareciam ficar gravados na memória com uma clareza e um detalhe muito superiores aos acontecimentos do quotidiano.
A teoria base era: quando somos confrontados com uma notícia inesperada, emocionalmente intensa e socialmente relevante, podemos formar uma memória particularmente vívida não apenas do acontecimento em si, mas também das circunstâncias em que descobrimos o que aconteceu.
É como se o cérebro registasse não só “o que aconteceu”, mas também “onde eu estava quando soube que aconteceu”.
Por exemplo, podemos recordar:
O conceito surgiu inicialmente associado a acontecimentos com um enorme impacto coletivo, como o assassinato de figuras públicas, mas acabou por ser aplicado a muitos outros acontecimentos inesperados e emocionalmente marcantes.
O 11 de setembro tornou-se um dos exemplos mais estudados deste fenómeno. Um estudo que acompanhou mais de 3.000 pessoas em sete cidades norte-americanas analisou as memórias relacionadas com os atentados uma semana depois, 11 meses depois e vários anos mais tarde. Os investigadores verificaram que as memórias sobre o contexto em que as pessoas souberam do acontecimento conseguiam manter-se durante longos períodos.
E aqui está a parte curiosa: uma flashbulb memory não é necessariamente uma memória perfeita. Podemos ter uma enorme sensação de certeza e clareza relativamente ao momento em que recebemos uma determinada notícia e, ainda assim, alguns dos detalhes recordados poderem alterar-se com o passar dos anos.
Ou seja, aquela memória de “eu sei exatamente onde estava quando soube” pode permanecer extraordinariamente forte, mesmo que nem todos os pormenores dessa recordação sejam absolutamente precisos.
É precisamente esta combinação entre vivacidade, emoção e confiança na memória que tornou o 11 de setembro num dos acontecimentos mais importantes para o estudo da memória humana.
A combinação que compõem este fenómeno é feita por três ingredientes chave: emoção, surpresa e importância.
O nosso cérebro não trata todas as experiências da mesma forma.
Um dia normal de trabalho pode ser composto por dezenas de acontecimentos que rapidamente desaparecem da nossa memória: o que almoçámos, onde estacionámos o carro, uma conversa no corredor ou o caminho que fizemos até casa.
Mas quando acontece algo inesperado e emocionalmente intenso, o cérebro atribui àquele acontecimento uma importância completamente diferente. No caso do 11 de setembro, juntaram-se vários fatores.
É uma combinação praticamente perfeita para transformar um momento numa memória altamente marcante.
Vamos explorar um aspeto importante: embora seja frequente ter uma memória extremamente vívida deste dia, pode acontecer (ainda assim), de alguns dos seus detalhes não serem totalmente precisos.
Parece contraditório, mas a investigação mostra que a confiança que temos numa memória e a sua precisão não são exatamente a mesma coisa.
Um estudo de acompanhamento realizado ao longo de dez anos verificou que, apesar de existir esquecimento de alguns detalhes, a confiança das pessoas nas suas memórias permanecia elevada.
Isto significa que podemos ter a certeza absoluta de que “foi naquele sítio, com aquela pessoa e a fazer determinada coisa” e, ainda assim, alguns pormenores da recordação poderem ter sido alterados ao longo do tempo.
A memória não funciona como uma gravação de vídeo. É mais parecida com uma história que o cérebro reconstrói sempre que a recordamos. E cada vez que contamos essa história, vemos imagens, ouvimos relatos ou conversamos sobre ela, estamos também a voltar a ativar essa memória.
Porque o 11 de setembro não é só uma data. Porque não foi apenas um acontecimento. Foi também uma experiência coletiva.
Milhões de pessoas viram as mesmas imagens, ouviram as mesmas notícias e acompanharam os acontecimentos praticamente em simultâneo.
Depois, durante dias, semanas, meses e anos, o 11 de setembro continuou a ser discutido, noticiado, estudado e recordado. Essa repetição ajuda a manter determinadas memórias acessíveis.
Aliás, estudos sobre as memórias do 11 de setembro mostram precisamente que fatores como a atenção dada aos meios de comunicação, a discussão do acontecimento, a proximidade física e o impacto emocional tiveram influência na forma como as memórias foram mantidas ao longo do tempo.
É por isso que uma pessoa pode não se lembrar do que fez numa terça-feira qualquer de setembro de 2001… mas consegue responder imediatamente onde estava quando soube dos atentados, acontecimentos verdadeiramente trágios e mediáticos.
Quando perguntamos “onde estavas no 11 de setembro?”, não estamos necessariamente a perguntar apenas sobre o acontecimento histórico.
Estamos a perguntar sobre a nossa própria história.
A pergunta leva-nos numa viagem do tempo que nos devolve a uma versão mais jovem de nós próprios… À escola, ao trabalho, à família, aos amigos, à casa onde vivíamos, à pessoa que éramos naquele momento.
É precisamente por isso que estas memórias podem ter uma dimensão tão pessoal. Apesar de ter sido um acontecimento foi coletivo, mas a memória é individual e cada pessoa guarda a sua própria versão daquele dia.
Para alguém, a memória pode começar numa sala de aula. Para outra pessoa, numa televisão ligada em casa. Para outra, numa conversa entre colegas. Para outra, numa chamada telefónica.
E talvez seja essa uma das razões pelas quais a pergunta continua a ter tanto impacto: não estamos apenas a recordar o que aconteceu no mundo. Estamos a recordar onde estávamos nós quando o mundo mudou.
Existe aqui uma aprendizagem interessante sobre a forma como funcionam as nossas memórias.
Não precisamos de viver acontecimentos históricos para criar memórias fortes. Momentos emocionalmente significativos da nossa própria vida também podem ficar profundamente associados ao contexto em que aconteceram.
Muitas vezes, anos depois, conseguimos regressar mentalmente a esses momentos através de pequenos detalhes: uma música, um cheiro, um lugar ou uma frase. E, por vezes, senti-lo quase com a mesma intensidade, até.
O cérebro cria associações entre acontecimentos e emoções, tornando algumas experiências muito mais acessíveis do que outras (tanto as boas, como as más).
Passaram 25 anos… Parece difícil de acreditar já que nos lembramos “tão bem”...
Muitas das pessoas que nasceram depois de 2001 conhecem o 11 de setembro apenas através de livros, documentários, fotografias e relatos de quem estava vivo naquele dia.
Para quem o viveu, porém, a experiência é diferente. Existe uma memória pessoal associada a um acontecimento histórico. E talvez seja precisamente por isso que a pergunta continue a ser tão poderosa:
“Onde estavas no 11 de setembro?” Já que a pergunta sobre nunca é só sobre a geografia. É uma pergunta sobre memória, emoção, tempo e identidade. É perguntar onde estávamos quando algo aconteceu que dividiu o mundo entre o “antes” e o “depois”.
E talvez a resposta esteja guardada naquele pequeno detalhe que ainda conseguimos visualizar 25 anos depois. A sala onde estávamos. A pessoa que estava ao nosso lado. A televisão ligada. A notícia que parecia surreal.
E a sensação de perceber, pela primeira vez, que estávamos a assistir a um momento que nunca mais esqueceríamos. Porque algumas datas ficam no calendário. Outras ficam na memória.
E o 11 de setembro ficou, inevitavelmente, nas duas.