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Imagina um jovem de 24 anos que trabalha a embalar produtos num supermercado em Porto Rico, enquanto faz os seus primeiros uploads no SoundCloud. Imagina esse mesmo jovem a tornar-se, anos depois, o artista mais ouvido do planeta – não uma, não duas, mas quatro vezes. Parece um filme, mas é a história de Benito António Martínes Ocasio, conhecido como Bad Bunny.
Este artigo não é apenas sobre música. É sobre um homem que dominou a cultura mundial e quebrou todas as regras do que significa ser um artista no século XXI. É um defensor das suas origens e um precursor da arte, igualdade, filantropia e progresso.
Bad Bunny não seguiu o guião tradicional dos grandes artistas. Não foi descoberto por uma grande editora. Não gravou nenhum álbum em inglês para conquistar o mercado americano e o mundo. Não cedeu ao mercado.
Fez exatamente o oposto: lançou música honesta e crua, inteiramente em espanhol, para uma plataforma digital – o resto, o algoritmo resolveu. A sua trajetória meteórica começou com o seu primeiro single (Diles), lançado em 2016 no SoundCloud.
Em 2018, chegou ao número 1 do Billboard Hot 100, colaborando com Cardi B e J Balvin, no single I Like It. Sem ceder às regras do jogo da indústria musical e à sua identidade cultural, alcançou o topo global.
Tornou-se o rei da cultura mundial através da sua capacidade de desafiar o status quo fora da indústria musical e de se manter fiel à sua identidade cultural.
Fugiu do mainstream e nunca tentou agradar o mercado. Fá-lo com autenticidade e honestidade, com músicas sobre a sua terra, as suas pessoas e as suas contradições. Ao ser local tornou-se global.
Não se cingiu a um único estilo. No mesmo álbum, podemos ouvir reggateon, salsa, trap latino e rock, mantendo sempre o público em estado de surpresa.
Rompeu as regras da sociedade, sobretudo da indústria musical, onde a masculinidade latina é frequentemente hiper-sexualizada e rígida. Como? Com os seus looks, unhas pintadas, acessórios extravagantes, roupa andrógina e até saias.
Através da sua aparência, assumiu posições políticas a favor da igualdade, liberdade de expressão e democracia. Com isto, conquistou também o público LGTBQ+.
Por exemplo, no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon, vestiu-se com uma camisola que dizia “Mataram a Alexa, não um homem de saia”, em forma de protesto contra a violência transfóbica em Porto Rico.
Bad Bunny, sempre evitou o excesso de exposição mediática. De poucas palavras, controlou meticulosamente a sua narrativa. Quanto menos fala, mais o mundo quer ouvi-lo. E quando fala, fá-lo com objetivo e impacto.
Mesmo assim, dominou as redes sociais. Cada lançamento é um evento cultural. Os conejitos, os seus fãs, transformam cada música num fenómeno nas redes sociais.
Ele não persegue a atenção dos fãs, como muitos artistas. Mantém-se misterioso, sabendo que o mundo espera por ele.
Benito mudou a forma como as plataformas, editoras e os artistas pensam sobre os mercados globais e a indústria musical.
Antes, a indústria era clara: para teres um impacto mundial, tens de cantar em inglês. O chamado crossover, que era o objetivo de qualquer artista latino. Shakira, Jennifer Lopez e Ricky Martin são exemplos de artistas que cederam à música em língua inglesa.
Bad Bunny recusou esta ideia, cantando sempre em espanhol. O impacto foi significativo: Spotify, Apple Music e Youtube viram-se obrigados a investir em playlist e algoritmos orientados para o mercado latino.
O resultado da sua forma de estar na indústria musical e fora dela foi impressionante: tão impressionante ao ponto de a revista Time o nomear como um dos 100 homens mais influentes do mundo – não apenas como músico; também como figura cultural.
O momento da ascensão meteórica de Benito acontece em maio de 2022, com o lançamento de Un Verano Sin Ti. Em menos de 24h, o disco estava no topo de praticamente todas as plataformas de streaming do mundo.
Composto por 23 faixas, que incluem reggaeton, dembow, bachata e ambiente, o álbum foi lançado sem campanhas de marketing tradicionais. Apenas um post nas redes sociais.
O resultado? Tornou-se o álbum mais ouvido de todos os tempos na história do Spotify. Ultrapassou clássicos de Taylor Swift, Drake e The Weeknd. Além disso, o álbum foi nomeado para o Grammy de Álbum do Ano em 2023.
Era a primeira vez que um disco completamente em espanhol recebia esta nomeação.
Em 2026, venceu mesmo o prémio de Álbum do Ano nos Grammys. Não foi apenas uma vitória estatística, foi a consagração oficial do artista e da música em língua espanhola – a primeira vez que um álbum inteiramente em espanhol vencia esta categoria.
Dominou completamente o mundo, com o álbum a manter-se no Top 1 do Spotify Global durante 12 semanas consecutivas. A sua filantropia também se sobressaiu, com parte das receitas da digressão que se seguiu ao prémio a serem destinadas à preservação das costas caribenhas.
Ao subir ao palco, Benito recusou o uso de um tradutor oficial. No seu discurso, quase todo em espanhol, focou-se na resistência cultural, dizendo:
“Este prémio não é meu, é de uma cultura que se recusou a ser silenciada. Fiz este disco no meu quarto, a pensar nas pessoas que trabalham de sol a sol em San Juan. O espanhol não é um género, é a nossa vida”.
Bad Bunny não tem medo de arriscar a sua carreira para defender a sua pátria, ao contrário de muitas estrelas pop que evitam controvérsias para se defenderem. Mas, Benito, não é apenas uma estrela pop – é um líder social e político.
Por exemplo, em 2019, interrompeu a sua digressão na Europa para liderar os protestos massivos que exigiam a demissão do governador Ricardo Rosselló, em Porto Rico. Nas suas músicas, critica abertamente a crise energética da ilha, a gentrificação e a exploração do povo porto-riquenho.
Benito tornou-se a voz de uma geração que recusa a calar-se perante a injustiça.
Bad Bunny protagonizou um dos momentos mais marcantes da cultura pop no Super Bowl LX, realizado no Levi's Stadium na Califórnia. Foi a primeira vez que um artista latino a solo encabeçou o prestigiado Halftime Show.
Pela primeira vez na história, Benito vai atuar em Portugal. Sobe ao palco nos dias 26 e 27 de maio, no Estádio da Luz, em Lisboa. Os bilhetes esgotaram rapidamente, com preços entre os 75€ e os 585€.
O fenómeno começou ainda antes dos bilhetes estarem à venda e do anúncio final, quando circulavam fotografias nas redes sociais de duas cadeiras brancas de plástico à entrada do Estádio da Luz, numa campanha de marketing com alusão direta à capa do álbum Debí Tirar Más Fotos.
Lisboa será o segundo palco da digressão europeia, logo após Barcelona. Os conejitos portugueses já estão ansiosos para uma noite que promete ficar na memória.
Bad Bunny provou que a autenticidade é a forma mais valiosa do século XXI. Não é apenas um artista, mas um modelo a seguir.
Benito Martínez Ocasio nunca cedeu às regras do jogo para chegar mais longe. Manteve-se fiel a si próprio, à sua identidade cultural e às suas origens. Domina o palco, mas também é um líder a favor da justiça política e da democracia.
Quando as luzes do Estádio da Luz se acenderem nos dias 26 e 27 de maio, os conejitos portugueses não estarão apenas a receber o maior artista do planeta, mas também um movimento que quebrou barreiras linguísticas e preconceitos de género.
Bad Bunny ensinou-nos que o talento não precisa de legendas.