PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
"Uma mosca, um mistério, uma moda que passou... Quem é ele? Esse tal de rock'n'roll?"
Décadas depois de Rita Lee fazer esta pergunta, a resposta continua a ser... complicada. O rock já foi chamado de barulho, de rebeldia sem causa, de influência perigosa para os jovens, de moda passageira e até de "coisa que ia desaparecer em poucos anos". Spoiler: não desapareceu (ainda bem!).
Sobreviveu a mudanças de geração, à chegada do pop, da música eletrónica, do streaming, das redes sociais e até aos algoritmos que juram conhecer melhor os nossos gostos do que nós mesmos. E continua ali, firme, a fazer pessoas aumentarem automaticamente o volume quando começa aquele riff inconfundível.
No dia 13 de julho, celebra-se o Dia Mundial do Rock, uma data dedicada a um género musical que fez muito mais do que encher estádios. O rock mudou a forma como nos vestimos, como falamos, como pensamos e até como encaramos a liberdade de sermos quem somos - por isso ele continua tão vivo.
Não interessa se a tua banda favorita é Rolling Stones, Nirvana, Black Sabbath, Metallica ou se foste apresentado ao rock através de uma playlist aleatória do Spotify… há qualquer coisa neste género que atravessa gerações sem pedir licença.
Então... afinal, quem é esse tal de rock'n'roll? No fim deste artigo, a resposta será um bocadinho mais clara.
Muito antes dos estádios esgotados, das digressões mundiais e dos festivais que hoje conhecemos, o rock nasceu como um grito de liberdade. Nos anos 50, artistas como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley revolucionaram a música ao misturarem blues, gospel e country numa sonoridade que desafiava convenções e mudava uma geração.
Na década seguinte, o género ganhou uma dimensão ainda maior. Os Beatles transformaram a forma de escrever e produzir música, os Rolling Stones trouxeram uma atitude irreverente, os The Who reinventaram os concertos ao vivo e nomes como Jimi Hendrix, The Doors ou Cream provaram que o rock podia ser muito mais do que entretenimento: podia ser arte, identidade e uma forma de unir milhões de pessoas.
Foi precisamente esse poder que ficou eternizado a 13 de julho de 1985, quando aconteceu um dos maiores concertos solidários de sempre: o Live Aid.
Enquanto milhões de pessoas assistiam pela televisão, dois concertos gigantes decorriam em simultâneo: um no Estádio de Wembley, em Londres, e outro em Filadélfia, nos Estados Unidos. O objetivo era angariar fundos para combater a fome na Etiópia.
Hoje parece normal acompanhar concertos em direto através do telemóvel, mas em 1985 aquilo foi absolutamente revolucionário. Estima-se que perto de 2 mil milhões de pessoas tenham acompanhado o evento em mais de uma centena de países. E que alinhamento… Queen, David Bowie, U2, The Who, Elton John, Paul McCartney, Dire Straits, Black Sabbath, Mick Jagger, Phil Collins (que, num feito quase inacreditável, atuou em Londres, entrou num avião supersónico e ainda conseguiu subir ao palco em Filadélfia no mesmo dia).
Mas o mais bonito nesta história é perceber que o rock mostrou uma das suas maiores características: a capacidade de unir pessoas - e poucas imagens são tão simbólicas quanto ver um estádio inteiro a cantar em uníssono.
O rock nunca passou despercebido. Desde o início incomodou, assustou, provocou. Fez pais franzirem a testa, professores perderem a paciência e vizinhos baterem à parede por causa do volume da guitarra. Talvez tenha sido isso que fez tanta gente apaixonar-se por ele.
Porque o rock'n'roll nunca vendeu só canções: vendeu liberdade, atitude e muita personalidade. Enquanto outros estilos musicais se limitavam a acompanhar tendências, o rock fazia precisamente o contrário: criava-as.
As calças rasgadas, os casacos de cabedal, as botas gastas, as t-shirts de bandas, o cabelo comprido, as tatuagens, os festivais ao ar livre, as guitarras ao ombro… Até quem nunca ouviu um álbum inteiro de rock consegue reconhecer imediatamente a estética.
É quase impossível separar uma coisa da outra, mas existe outro detalhe curioso: o rock é um dos poucos géneros musicais que consegue aproximar pessoas de idades completamente diferentes. Há pais que apresentam Queen aos filhos, filhos que descobrem Nirvana por causa de uma série, avós que continuam a ouvir Elvis… essa é a magia: o rock não pertence a uma geração, pertence a todas.
Se tentássemos escolher apenas uma banda para representar o rock, provavelmente acabaríamos numa discussão que duraria dias. Cada década trouxe artistas que mudaram completamente as regras do jogo: uns reinventaram o som, outros reinventaram os espetáculos e alguns conseguiram fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Poucas bandas conseguiram juntar tanta grandiosidade, teatralidade e talento numa só carreira. E depois havia Freddie Mercury: um vocalista que transformava qualquer palco num espetáculo e qualquer multidão num coro improvisado. Aliás, existe uma experiência quase universal: ouvir "We Will Rock You" e começar a bater o pé no chão (nem tentem negar).
Embora alguns os associem ao pop, os Beatles ajudaram a mudar completamente a história do rock. Foram pioneiros na forma de gravar discos, de compor músicas e de transformar bandas em fenómenos culturais. Mais de sessenta anos depois, ainda continuam a conquistar novos fãs.
Há quem diga que o rock pesado começou verdadeiramente aqui: as guitarras inesquecíveis, os solos intermináveis, as canções épicas… e uma influência que ainda hoje se sente em centenas de bandas.
Se o rock tivesse um lado filosófico, provavelmente soaria a Pink Floyd. Não eram apenas músicas, eram experiências. Álbuns inteiros pensados como uma única viagem, capazes de prender quem ouve do primeiro ao último minuto.
Poucas bandas conseguem produzir tanta energia durante tantos anos. O riff de "Back in Black" é imediatamente reconhecido em qualquer parte do mundo - e há boas hipóteses de que alguém esteja a fazer air guitar neste momento só de ler esse nome.
Quando se fala de rock, é fácil imaginar guitarras vindas de Inglaterra ou dos Estados Unidos, mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que o rock também encontrou casa deste lado do Atlântico (e encontrou muito bem).
Em Portugal e no Brasil, o rock ganhou sotaques diferentes, letras que falavam da realidade de cada época e artistas que marcaram gerações inteiras.
Se existe uma artista impossível de ignorar, essa artista é Rita Lee. Cantora, compositora, escritora, atriz e provocadora profissional, Rita nunca fez música apenas para agradar, mas para questionar, brincar, desafiar e, muitas vezes, rir de tudo aquilo que parecia demasiado sério. Enquanto muita gente ainda insistia em dizer que o rock era território masculino, ela aparecia de cabelo vermelho, botas altas e uma personalidade impossível de copiar.
As suas músicas falavam de liberdade, amor, feminismo, comportamento e quotidiano, sempre com uma inteligência disfarçada de humor. "Esse Tal de Roque Enrow", por exemplo, brincava precisamente com o choque que o rock provocava em muitas famílias da época. O título escrito de propósito de forma aportuguesada dizia muito sobre a forma como aquele género musical ainda parecia estranho para tanta gente.
Se Rita Lee trouxe irreverência, Raul Seixas trouxe filosofia... misturada com muito rock. Era impossível prever a próxima ideia de Raul. Misturava Elvis Presley com literatura, espiritualidade, política e um humor muito próprio.
Criou músicas que continuam tão atuais que quase custa acreditar que foram escritas há décadas. Mais do que cantor, Raul tornou-se um símbolo de quem escolheu viver à sua maneira.
Há bandas que fazem sucesso e há bandas que conseguem transformar versos em memórias de vida - Legião pertence claramente ao segundo grupo. As letras de Renato Russo continuam a ser citadas como poemas. Falavam de amor, política, juventude, medos e esperança de uma forma tão direta que parecia impossível não nos reconhecermos em alguma frase.
Se existisse uma palavra para resumir Cazuza, talvez fosse intensidade. Cada música parecia escrita como se fosse a última. As suas letras falavam de liberdade, paixão, excessos e fragilidade com uma honestidade rara. É impossível falar da história do rock brasileiro sem o incluir.
Por cá, o rock também ajudou a escrever capítulos importantes da música portuguesa.
Se perguntássemos a alguém para dizer uma banda portuguesa em menos de três segundos, as probabilidades de ouvir "Xutos & Pontapés" seriam enormes, e não é por acaso: há mais de quatro décadas que fazem parte da banda sonora do país.
As suas músicas atravessaram gerações e continuam presentes em concertos, festas populares, festivais e viagens de carro onde, inevitavelmente, toda a gente acaba por cantar o refrão. É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido Contentores, À Minha Maneira, Homem do Leme ou A Minha Casinha.
Durante anos foram quase uma banda de culto, hoje são uma referência obrigatória. Os Ornatos Violeta conseguiram criar um som muito próprio, misturando rock alternativo com letras profundas, sensíveis e, muitas vezes, desconcertantes. Mesmo tendo estado pouco tempo juntos, deixaram uma marca enorme na música portuguesa.
Com humor, irreverência e uma identidade muito própria, os GNR ajudaram a moldar o rock português dos anos 80 e 90. As suas músicas continuam presentes nas rádios e, provavelmente, também na memória de quem viveu essa época.
Muito antes de o rock português se tornar verdadeiramente popular, os UHF já abriam caminho. Foram dos primeiros a provar que era possível fazer rock em português sem perder autenticidade.
Atenção: ouvir essa playlist pode provocar vontade súbita de aumentar o volume, cantar refrões em inglês inventado e transformar a sala de casa num concerto privado.
De tempos a tempos, alguém faz a mesma pergunta: "Mas o rock ainda existe?", e a verdade é que essa conversa já acontece há décadas. Quando o punk apareceu, disseram que o rock tradicional tinha morrido. Quando o grunge explodiu nos anos 90, disseram que o rock clássico tinha acabado. Quando o pop dominou as tabelas, disseram novamente que o rock tinha perdido espaço. Depois vieram o streaming, as redes sociais, o TikTok, os algoritmos e mais uma ronda de previsões apocalípticas.
Mas aqui estamos: a ouvir Pink Floyd, a descobrir Nirvana, a cantar Legião Urbana e a emocionar-nos com Xutos & Pontapés.
Já que estamos a celebrar o Dia Mundial do Rock, aqui ficam algumas curiosidades para impressionar aquela pessoa que insiste em monopolizar as conversas sobre música.
O concerto dos Queen no Live Aid é considerado um dos melhores de sempre
Foram apenas cerca de 20 minutos, mas bastaram para entrar para a história. A atuação de Freddie Mercury e dos Queen continua a ser frequentemente apontada como uma das apresentações ao vivo mais impressionantes de todos os tempos.
O riff mais reconhecível do mundo?
Muitos especialistas apontam "Smoke on the Water", dos Deep Purple. Se alguma vez pegaste numa guitarra ou conheces alguém que toca, provavelmente já ouviste aquele riff dezenas de vezes.
Rita Lee começou nos Mutantes
Antes de se tornar uma das maiores artistas brasileiras de sempre, Rita Lee integrou os Mutantes, banda fundamental para o movimento tropicalista e para a história do rock em português.
Voltamos à pergunta da Rita Lee, aquela pergunta divertida, quase inocente: "Quem é ele? Esse tal de rock'n'roll?".
A resposta é mais simples do que parece: é o som de uma guitarra que arrepia, é uma música que continua atual mesmo quarenta anos depois, é um refrão cantado em coro por milhares de pessoas. É aquele que mudou vidas, atravessou gerações, fez barulho quando o mundo pedia silêncio e continua a aparecer sempre que alguém carrega no play.
E entre clássicos eternos, novas descobertas e playlists 5 estrelas, talvez seja uma boa altura para aumentar um bocadinho o volume. Afinal, há coisas que simplesmente merecem ser ouvidas no máximo. Feliz Dia Mundial do Rock!