PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Durante anos, falar do tempo era uma conversa leve: “Será que hoje vai chover?”, “Tá frio!”, “Acho que este ano o verão vem forte”. Mas, nos últimos tempos, em Portugal, o clima deixou de ser apenas previsão — passou a ser presença constante nas nossas conversas e, principalmente, nas notícias que circulam diariamente.
Semanas marcadas por depressões atmosféricas sucessivas, alertas meteorológicos constantes, chuvas intensas, cheias e ventos fortes têm gerado forte impacto na vida de milhares de pessoas. Nomes como Kristin, Leonardo ou Marta deixaram de ser só nomes comuns e tornaram-se termos técnicos, que agora fazem parte do nosso quotidiano.
E quando estes fenómenos deixam de ser exceção e passam a padrão, algo dentro de nós também se ajusta. O impacto não é apenas físico, com estradas cortadas, casas inundadas, árvores caídas e várias outras catástrofes. É também emocional. O nosso corpo reconhece o estado de alerta e a mente tenta antecipar o que pode vir a seguir.
É neste contexto que começa a surgir, cada vez com mais frequência, um conceito chamado eco-ansiedade.
O nosso país, tal como outras regiões do mundo, tem registado um aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Tempestades mais fortes, períodos de chuva intensa concentrados em poucos dias, ondas de calor mais prolongadas. Não se trata de um episódio isolado, é um padrão que anda a se repetir. E a repetição desgasta, mesmo quando não somos diretamente afetados.
Podemos não ter perdido bens materiais, mas estamos expostos à narrativa constante de alerta nas notificações no telemóvel, imagens nas redes sociais e reportagens em direto. O nosso sistema nervoso não distingue totalmente entre perigo imediato e ameaça repetidamente anunciada. A exposição contínua a cenários de risco pode gerar um desgaste emocional subtil, mas cumulativo.
Isto é a reação humana a um contexto em mudança.
Eco-ansiedade — ou ansiedade climática — é a resposta emocional associada ao medo das alterações climáticas e do futuro do planeta. Não é uma doença formal, e nem, por si só, um diagnóstico clínico. Mas uma experiência emocional real e cada vez mais comum, que pode manifestar-se como:
É importante dizer com clareza: sentir eco-ansiedade não significa fraqueza. Significa sensibilidade e consciência. Num mundo em transformação, é natural que a nossa mente tente antecipar riscos.
Nos últimos anos, a investigação científica tem vindo a estudar mais atentamente o impacto psicológico das alterações climáticas.
Um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health analisou mais de 10.000 jovens em vários países e concluiu que uma parte significativa relatava medo, tristeza e preocupação intensa relacionados com o futuro climático. Muitos referiram que esses sentimentos afetavam o sono, a concentração e a perceção de segurança.
Além disso, relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change reconhecem explicitamente que as alterações climáticas têm impacto na saúde mental, classificando-o como um risco emergente de saúde pública.
Outro termo utilizado por investigadores é “climate distress”, que pode ser traduzido como o sofrimento emocional associado à perceção contínua de crise ambiental.
A ciência não está a dizer que todos devemos entrar em pânico. Está a validar algo mais simples: quando a ameaça é percebida como real e recorrente, o nosso cérebro responde, o que é normal.
A nossa mente foi desenhada para reagir à imprevisibilidade. Quando surgem sinais constantes de ameaça, mesmo através de notícias, o sistema nervoso pode entrar num estado de vigilância prolongada. Este estado ativa o chamado sistema de stress: aumenta a tensão muscular, acelera a frequência cardíaca e torna a respiração mais superficial.
Se essa ativação se repete com frequência, o corpo pode começar a viver em modo de alerta quase permanente. Com isto, podemos dizer que eventos climáticos extremos afetam três pilares psicológicos fundamentais:
A combinação destes fatores pode amplificar a ansiedade. Mas há um ponto importante: em níveis moderados, esta preocupação pode ser adaptativa. Estudos em psicologia ambiental mostram que níveis equilibrados de preocupação estão associados a um maior envolvimento em comportamentos sustentáveis. Ou seja, a emoção pode ser combustível — desde que não se transforme em paralisia.
O objetivo não é eliminar a preocupação, mas evitar que ela tome conta de tudo.
Nem sempre aparece de forma evidente. Às vezes, ela infiltra-se nas pequenas coisas.
Alguns sinais comuns incluem:
Em casos mais intensos, pode afetar o sono, a concentração e até a motivação. Mas, novamente: isto não é exagero, é uma reação compreensível a um cenário complexo e incerto.
Vivemos numa era de informação contínua: alertas meteorológicos em tempo real, vídeos partilhados segundos depois do acontecimento, discussões permanentes nas redes sociais… O fenómeno conhecido como “doomscrolling” (consumir sucessivamente notícias negativas) pode aumentar a perceção de ameaça. Estar informado é importante, mas estar constantemente exposto não é o mesmo que estar consciente.
O nosso cérebro precisa de pausas para integrar informação. Sem essas pausas, mantém-se em ativação constante. Criar limites conscientes ao consumo de notícias não é alienação — pelo contrário, é autocuidado.
Não podemos controlar o clima, mas podemos regular a forma como lidamos com ele.
Algumas estratégias simples e eficazes:
Criar pausas digitais
Define horários específicos para consultar notícias e evita começar ou terminar o dia com alertas.
Focar no que está ao teu alcance
Trocar a sensação de impotência por pequenas ações concretas (redução de desperdício, escolhas sustentáveis, envolvimento comunitário) ajuda a recuperar agência.
Manter rotinas estáveis
Sono regular, alimentação equilibrada e exercício físico são pilares reguladores do sistema nervoso.
Movimento como regulador emocional
Caminhadas, alongamentos ou exercícios respiratórios ajudam a descarregar a tensão acumulada.
> Respiração consciente (2–3 minutos)
Inspira pelo nariz, expira lentamente pela boca. Ajuda a sinalizar segurança ao sistema nervoso.
> Exercício de ancoragem 5–4–3–2–1
Identifica 5 coisas que vês, 4 que sentes no corpo, 3 que ouves, 2 que cheiras e 1 que saboreias. Ideal para momentos de ansiedade intensa.
> Escrita emocional breve
Escreve durante alguns minutos sobre o que estás a sentir. Um gesto simples que organiza os pensamentos e reduz a sobrecarga.
Pequenos gestos = pequenos retornos ao presente.
Há uma diferença importante entre ansiedade paralisante e preocupação mobilizadora: a primeira bloqueia, enquanto a segunda mobiliza. Pequenas ações sustentáveis, mesmo que pareçam insignificantes, ajudam a reconstruir a sensação de controlo.
Participar de iniciativas locais, reduzir o consumo excessivo ou aprender mais sobre sustentabilidade são bons exemplos. Agir, mesmo em pequena escala, envia uma mensagem interna poderosa: “Eu não estou apenas a assistir.”; e isso acalma.
É fundamental normalizar isto: se a ansiedade se tornar persistente, intensa ou interferir com o sono, trabalho ou relações, procurar apoio profissional é um ato de cuidado, e não de fraqueza.
Sinais de alerta incluem:
Não é preciso “estar no limite” para pedir ajuda. Às vezes, conversar com um profissional é simplesmente uma forma de organizar pensamentos e ganhar ferramentas de regulação. Procurar apoio significa que estás a cuidar de ti.
Alguns serviços acessíveis e confidenciais:
SNS 24 – 808 24 24 24
Disponível 24 horas por dia. Pode encaminhar para apoio psicológico e serviços de saúde adequados.
Voz de Apoio – 225 50 60 70
Linha de apoio emocional, com escuta ativa e confidencial.
SOS Voz Amiga – 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660
Linha de apoio emocional disponível diariamente.
Centros de saúde e unidades locais do SNS também podem fazer encaminhamento para consultas de psicologia.
Se estiveres em situação de emergência ou risco imediato, liga 112.
Pedir ajuda também é uma forma de agir. E agir, mesmo que seja para cuidar de ti, continua a ser parte da solução.
Num mundo em mudança, sentir preocupação é humano. A eco-ansiedade não significa que estejas a exagerar, é apenas um sinal de que estás atento e que te importas com o que está a acontecer ao teu redor. O desafio não é deixar de sentir, mas aprender a regular e a cuidar-te enquanto fazes a tua parte.
Não precisamos de carregar o peso do planeta sozinhos (não mesmo!). Podemos aprender a cuidar da nossa saúde mental enquanto o mundo se transforma. Porque, no fim, tudo está conectado: cuidar de nós também é uma forma de cuidar do planeta. E lembra-te: estamos todos junt@s nessa.