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Não é um assunto novo, de todo. Não foi um conceito que começou a ser falado ontem, nem pouco mais ou menos.
Talvez o algoritmo já vos tenha entregue alguns conteúdos sobre isto, mas passaram e nem tomaram atenção. Ou se calhar até repararam, mas preferiram fazer vista grossa, quem nunca? Às vezes preferimos ignorar, especialmente quando sentimos um trigger a pairar no ar.
Limerence, ou Limerência, em português, é um conceito que tem feito mexer as redes sociais, principalmente o TikTok. É nada mais, nada menos, do que o nome dado a um estado de paixão e obsessão intensa por alguém. E não, não é algo saudável.
Podíamos ficar só por aqui? Podíamos. Mas a verdade é que este tema não é assim tão simples, e achamos que escrutiná-lo um pouco seria benéfico não só para nós, por fazer-nos refletir sobre, como para quem nos lê. Pode ser que até consigamos ajudar alguém que esteja nesta situação, quem sabe.
O conceito de Limerence apareceu “pelas mãos” da psicóloga Dorothy Tennov, no final dos anos 70.
Esta profissional tinha um interesse peculiar pelo sentimento de paixão intensa, e pela forma como este se desenrolava em cada indivíduo, e foi por isso que decidiu fazer uma experiência — reuniu um grupo de pessoas, e submeteu-o a um estudo baseado em entrevistas e relatos pessoais.
Mesmo sendo pessoas desconhecidas entre si, vindas de contextos completamente diferentes, havia algo que as unia, uma espécie de padrão emocional que era comum entre tod@s.
Esse padrão emocional caracterizava-se por paixões muito intensas, acompanhadas de uma necessidade de validação e reciprocidade extremas, e ainda com direito a uma idealização sobre o outr@ digna de filme.
Podiam ser só pessoas que vinham traumatizadas de outras relações, ou até de contextos familiares que tivessem vivido na infância ou adolescência (que não quer dizer que não pudessem afetar, atenção!), mas para Tennov, não era “apenas” isto.
Para ela, este padrão não se encaixava no padrão tradicional de amor romântico. O amor romântico, que é visto como um compromisso mútuo, com vínculo, cumplicidade e partilha, para estas pessoas não acontecia assim.
Por isso, para a psicóloga, estes não eram casos de amor, mas sim de algo que ia além disso, com outros contornos.
Ela apelidou então esta espécie de sentimento como Limerence, e foi assim que surgiu o termo, acabando por publicar um livro com o nome “Love and Limerence: The Experience of Being in Love”, em 1979.
Este conceito de Limerence, é descrito na psicologia como um estado de paixão muito intensa, mas com uma componente obsessiva e ansiosa. Troquemos por miúdos:
Quais são as características que mais se destacam neste estado?
A pessoa vê a outra como alguém extremamente especial, quase como intocável. Como se estivesse numa espécie de pedestal.
Os pensamentos estão quase sempre na outra pessoa. Passa os dias a pensar nela, no que andará a fazer e com quem, a ver as redes sociais, acabando por revistar os mesmos posts vezes sem conta, ou a ler as mensagens que trocaram.
Quer desesperadamente que a outra pessoa sinta o mesmo que ela, e isso leva à característica seguinte.
Qualquer que seja o sinal que a outra pessoa dê, por mais pequeno que seja, a pessoa neste estado interpreta-o como algo de grande significado.
Precisamente por consequência da característica anterior, se a pessoa der um sinal positivo ou de interesse, este é interpretado com super euforia. Já se acontecer o contrário, se não houver qualquer tipo de sinal, é interpretado como algo desolador que pode dar origem a um grande sofrimento.
Mas atenção!
Apesar deste termo ter sido amplamente estudado na psicologia, e ser discutido quando se fala de relações, ele não faz parte oficialmente dos manuais de diagnóstico psicológico. É um termo que surge associado a teorias mais recentes, como a dos tipos de apego, por exemplo.
Habituámo-nos a ver as relações de uma perspetiva em que o tóxico faz parte e é considerado normal, só que não.
E quando dizemos tóxico, não é só na relação direta com a outra pessoa, é na relação que temos também connosco e na nossa posição na relação.
É importante sabermos distinguir se algo está a ser bom para nós, e o bom também inclui pontos de vista diferentes e discussões saudáveis entre o casal. Ou se, pelo contrário, só nos está a deixar num estado de alerta constante e não estamos a conseguir ultrapassar isso para viver a “parte boa”.
Portanto, nem tudo é amor. E é por isso que é importante saber distingir se estamos num estado de limerência ou a viver um amor saudável.
Talvez seja mais fácil se os virmos lado a lado, por isso, bora lá:
Na Limerência
Alimentam-se da incerteza e da ansiedade.
No Amor Saudável
Crescem a partir da conexão real e da segurança
Na Limerência
São obsessivos e constantes. Há dificuldade de concentração noutras coisas/assuntos da vida.
No Amor Saudável
São equilibrados, a pessoa consegue manter-se equilibrada entre a vida de casal e as outras áreas da vida.
Na Limerência
Há uma tendência grande de ignorar os defeitos da pessoa, como se fosse perfeita.
No Amor Saudável
Há a plena noção de que existem qualidades e defeitos, como em qualquer outra pessoa, e escolhe-se lidar com isso.
Na Limerência
Há uma necessidade gigante de se ser correspondido, e a constante dúvida acaba por alimentar este ciclo.
No Amor Saudável
Cresce com a consistência e a confiança, e não se alimenta de sinais que não são óbvios.
Na Limerência
A forma como a pessoa se sente depende da atenção do outr@. Se não houver qualquer contacto, por exemplo uma mensagem ou um like, isso pode ser o suficiente para destruir o dia. E vice-versa.
No Amor Saudável
A pessoa gosta, sente-se feliz por ter atenção do outro lado, mas não depende disso para estar bem.
Na Limerência
As relações tendem a ser intensas e instáveis, sem grande perspetiva de futuro.
No Amor Saudável
As relações tendem a ser mais duradouras e a aprofundar-se ao longo do tempo.
Descobre aqui como…
Calma, as coisas não funcionam assim. Não há formulas mágicas, principalmente quando se trata de questões emocionais que podem ter raízes mais profundas.
O estado de limerência funciona como um mecanismo emocional automático, mas não é só desligar a ficha e pronto, somos pessoas diferentes.
O que se pode fazer, e bem, é aprender a reduzir a ansiedade e a obsessão a que este estado leva e, assim, conseguir-se recuperar o controlo das emoções.
1. Racionalizar o que está a acontecer
Olhar com mais precisão e intenção para o que se está a sentir. Ou seja, fazer perguntas como “esta pessoa é mesmo assim ou eu quero que ela seja assim?” ou “este sentimento está a ser reciproco ou são apenas migalhas para eu continuar aqui?”.
Este tipo de perguntas ajudam a clarificar a mente e até a desfazer o encanto.
2. Reduzir os Triggers
Nas redes sociais, parar de ver os stories, os posts, os sítios taggados, tudo. No dia a dia, tentar evitar o contacto constante e tentar relativizar os sinais, para que isto não seja um motivo de ansiedade.
3. Reequilibrar as emoções
Tentar ocupar a mente (e o tempo), com coisas reais. Pode ser encontrar com amigos, começar uma nova atividade que exija mais foco e atenção, começar a praticar exercício, criar rituais de sono.
Estas podem ser estratégias interessantes para desfocar do “problema”, e assim a pessoa perde tempo e espaço na vida da outra.
4. Procurar clareza
Se ainda assim, as primeiras três não forem suficientes, há sempre a possibilidade de se procurar respostas claras do outro lado. Ir direto ao assunto, com uma conversa honesta e sem floreados, para se perceber as intenções reais da outra pessoa.
Se a pessoa evitar esse confronto, também é uma resposta.
5. Fazer Terapia
Sim, é mesmo isso que está escrito.
Não é novidade para ninguém que a terapia ajuda a perceber o porquê dos nossos comportamentos e, neste caso, pode haver questões mais profundas, como o apego ansioso, que está a conduzir a este estado.
Já diziam os Red Hot Chilli Peppers, e nós concordamos.
Parece que isto de ter relações não saudáveis e que não nos satisfazem virou trend, e é tudo muito normalizado.
É assustador pensar que muitas das relações à nossa volta vivem deste tipo de conflitos internos e nós nem nos apercebemos disso.
É normal não sabermos tudo, é normal passarmos por situações com as quais não nos identificamos. É normal não acertar à primeira! Olhem as oportunidades de crescimento e de auto conhecimento que perderíamos se assim fosse…
O que não é normal é continuarmos a perpetuar estas situações, a viver sempre o mesmo tipo de relações, como se fosse um filme em modo repeat. Temos de aprender a não nos contentarmos com o que o outro acha que é suficiente para nós (era o que faltava!), aprender a quebrar padrões. E se para isso for preciso procurar ajuda profissional e especializada, então que seja. Sem medos!