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Lifestyle
14/06/2026

A Era dos Remakes: Ficámos Sem Ideias Ou Só Temos Saudades?

Imagem - A Era dos Remakes: Ficámos Sem Ideias Ou Só Temos Saudades?

A era dos remakes instalou-se no sofá e parece não querer sair. Sejam filmes, séries ou músicas, vivemos numa época de “novas versões”. Basta abrires a Netflix, Disney+ ou o Spotify e encontras repetições novas de produtos que fizeram sucesso.

Será que estamos a passar por um colapso criativo global? Ou matar as saudades tornou-se um produto valioso no século XXI? Neste artigo, vamos responder a estas questões dando-te a conhecer tudo o que contribui para a criação de remakes.

 

O Que é a Era dos Remakes? E Por Que Domina no Século XXI?

Antes de mais, um remake basicamente é pegar em algo que já existiu e fazê-lo de novo. Normalmente, com melhor tecnologia e com um elenco mais diverso.

Na indústria do entretenimento, o léxico para descrever variações deste conceito é muito abrangente: remake, reboot, revival, live-action, remake musical, prequel ou spin-off.

Os remakes não são um fenómeno novo, mas nunca tiveram tão sucesso como agora. Segundo o artigo do The Statesman - Hollywood Franchise Fatigue, 8 dos 10 maiores sucessos financeiros de 2025 foram sequências ou remakes.

Este texto revela ainda que, embora 62% do público afirme preferir histórias originais, os estúdios gastam entre 30% a 50% menos para promover um remake porque o público já sabe exatamente o que vai assistir e não são necessárias grandes estratégias de marketing.

Remakes de Filmes, Séries, Música e Jogos:

  • Live-actions da Disney, franquias da Marvel e DC e sequelas de filmes que não precisam de sequelas.
  • Reboots de Sex and the City e Dexter, entre outros.
  • Remixes de hits dos anos 90.
  • Remasters de jogos como Oblivion e Metal Gear.

 

A Saudade Como Motor Económico e Psicológico

Não é por acaso que vivemos na era dos remakes. O mercado não decidiu recriar jogos, músicas, séries e filmes porque é divertido.

Há uma intenção de negócio que é extremamente lucrativo. E que se basei num único indicador – a saudade. A saudade é o motor dos remakes, é através dela que voltamos a lugares onde fomos muitos felizes.

Mas por que resulta tão bem psicologicamente?

Quanto mais caótico e imprevisível é o presente, mais nos agarramos ao que já conhecemos. A indústria do entretenimento compreendeu isto muito antes do senso comum. Num mundo com pandemias, crises económicas e políticas, o conforto de um filme ou de uma música que já conhecemos torna-se irresistível.

Em 2025, estima-se que o consumo baseado em referências do passado movimentou centenas de biliões globalmente. As playlists nostálgicas no Spotify cresceram 145% e a hashtag #nostalgia ultrapassou 22 mil milhões de visualizações no TikTok.

O Paradoxo da Geração Z

A era dos remakes acompanha o regresso ao analógico, num paradoxo curioso: a geração Z sentes saudades de décadas que nunca viveu. Porquê?

Porque os anos 90 e 2000 são esteticamente cool para quem nasceu depois de 2000 – a força do analógico revela-se nas cassetes e telefones de teclas. Mas não só: também representam para os jovens uma promessa de um mundo mais simples e mais calmo.

E a indústria do entretenimento sabe exatamente como explorar esta saudade.

 

Quando Poucos Controlam Tudo o Que Vemos – O Chamado Oligopólio Cultural

Há uma perspetiva sombria sobre a era dos remakes. E se não for a saudade um dos maiores motores dos remakes, mas sim as condições financeiras.

Por outras palavras, não estará o sistema a beneficiar da produção mundial dos mesmos estúdios, realizadores, artistas e plataformas? Em detrimento de ideias originais?

Adam Mastroianni, doutorado em psicologia, descreve este movimento que beneficia sempre os mesmos produtores como: “Oligopólio Cultural”. A ideia base deste sistema é que o remake é a alternativa de segurança.

Por Que Favorecemos os Remakes em Detrimento da Criatividade?

  1. O Risco Financeiro é Menor – se a audiência já conhece o produto, e o feedback é positivo, o risco de correr mal é menor.
  2. O Marketing é Mais Barato – não existe necessidade de grande investimento para explicar o produto; já é amplamente conhecido pelo público.
  3. Benefício dos Algoritmos – as plataformas tendem a recomendar o que já gostamos, criando um loop de confirmação.
  4. Facilidade de Produção – adaptar é mais rápido e fácil do que criar um produto do zero.

 

Remakes Que Foram Um Sucesso

Sejas fã ou não de remakes, a verdade é que foram produzidas algumas obras que merecem existir e que se revelaram grandes sucessos, tais como:

  • Assim Nasce Uma Estrela: elenco composto por Lady Gaga e Bradley Cooper, conquistou a crítica, o público e várias nomeações aos Óscares. Um remake que provou que é possível inovar sem perder o respeito pelo original.
  • O Rei Leão: independentemente do que possas pensar sobre a qualidade deste remake, arrecadou mais de 1,6 milhões de dólares a nível mundial.
  • Final Fantasy VII Rebirth: foi elogiado por ter expandido a essência do original, em vez de ser apenas uma cópia.

 

Remakes Que Foram Um Desastre

Se alguns remakes foram um sucesso, outros levam-nos a questionar o que ia na cabeça de quem os financiou porque foram autênticos desastres, tais como:

  • Ben-Hur: o original de 1959 venceu 11 Óscares… o remake de 2016, apesar dos visuais impressionantes, não conseguiu replicar a grandiosidade nem o impacto emocional do original e revelou-se um fracasso.
  • A Múmia: foi pensado para lançar o chamado “Dark Universe” da Universal, seguindo o exemplo da Marvel, mas o filme foi de tal forma um fracasso que todos os planos foram imediatamente cancelados.
  • Secret of Mana: o original foi lançado em 1993 e foi considerado um dos melhores jogos de ação da Super Nintendo. O remake de 2018 foi um desastre, tanto na sua banda sonora, como nos visuais e na jogabilidade.

 

A Música Também Vive de Reboots – E o Responsável é o TikTok

Quando falamos na era dos remakes pensamos em cinema e séries. Contudo, a música também entra nesta lógica de “reciclagem”. A grande diferença é que na música as coisas acontecem de forma mais rápida e viral.

O TikTok é um dos principais responsáveis por esta relação com o passado musical. Uma música de 1990 pode aparecer rapidamente num vídeo de 15 segundos, com um novo mix, e tornar-se viral.

O problema para a indústria da música é que esta lógica pode abafar novas vozes e ser um entrave à inovação, diversidade e originalidade.

Exemplos de Reboots na Música:

  • Remixes: os hits antigos dominam a cena musical, misturando nostalgia com produção contemporânea.
  • Tributos Musicais: as vidas dos artistas do passado estão cada vez mais presentes com tributos musicais a Amy Whinehouse e Elvies, entre outros.
  • Taylor's Versions: Talylor Swift popularizou a ideia de regravar álbuns inteiros como ato artístico de afirmação de propriedade criativa.

 

Portugal e a Era dos Remakes: Somos Consumidores ou Também Somos Criadores?

É fácil apontar o dedo a Hollywood ou a grandes produtoras internacionais, seja no ramo da música, cinema ou videojogos. Mas a verdade é que Portugal não fica fora desta conversa, nem como consumidor nem como produtor.

Basta olharmos para os nossos consumos para concluirmos que Portugal também vive na era dos remakes: músicas dos anos 90 e 2000 em voga no TikTok e salas de cinema cheias sempre que são lançados remakes de grandes produtoras internacionais.

O Fenómeno das Telenovelas

As telenovelas são prova do grande consumo de remakes em Portugal. Muitas das novelas de sucesso foram adaptações autorizadas de originais brasileiros e argentinos. O público português consome produtos que também funcionaram noutros países.

Por exemplo, a TVI em parceria com a Prime Video avançou para um remake da telenovela “Ninguém Como Tu”, adaptando o enredo clássico a uma estética mais moderna, em formato de série, e beneficiando os ritmos do streaming.

O Pátio das Cantigas – Um Sucesso de Bilheteiras

Portugal não é apenas um país consumidor, também produz bons remakes. Exemplo disso, é o filme “O Pátio das Cantigas”, um dos filmes portugueses mais vistos de sempre nos cinemas. Os produtores provaram que é possível modernizar o humor e a identidade nacional para todas as gerações.

E Há Espaço para Originais em Portugal?

A boa notícia é que a indústria em Portugal não vive apenas de remakes. Existem criadores portugueses, em todos os campos (cinema, música, séries) que procuram exatamente o oposto: apostam no risco, na voz própria, no contemporâneo.

Estes criadores investem na sua criatividade e preocupam-se com a cultura, não se deixando subjugar apenas ao que já foi feito e ao que parece ser mais fácil e lucrativo.

Estes criadores portugueses preocupam-se com a cultura, promovem-na com a originalidade, com a mudança e com a novidade – quase como um ato político.

 

Afinal, Ficámos Sem Ideias ou Só Temos Saudades?

As duas coisas e não são mutuamente exclusivas. É verdade que vivemos na era dos remakes porque ficámos sem coragem criativa na indústria. Mas também é verdade que vivemos presos à nostalgia de outros tempos.

Um remake pode ser falta de criatividade, preguiça e o caminho mais fácil para alcançar o sucesso, mas sem grande impacto na vida das pessoas.

Por outro lado, um remake também pode ser uma genuína obra de amor, que acrescenta profundidade e permite que as histórias antigas passem de geração em geração.

Como na vida em geral, um remake deve servir para nos lembrarmos e honrarmos o passado, mas não deve ser a única forma de viver o presente; para isso, precisamos de conhecer novas sensações e viver novas experiências.

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