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A era dos remakes instalou-se no sofá e parece não querer sair. Sejam filmes, séries ou músicas, vivemos numa época de “novas versões”. Basta abrires a Netflix, Disney+ ou o Spotify e encontras repetições novas de produtos que fizeram sucesso.
Será que estamos a passar por um colapso criativo global? Ou matar as saudades tornou-se um produto valioso no século XXI? Neste artigo, vamos responder a estas questões dando-te a conhecer tudo o que contribui para a criação de remakes.
Antes de mais, um remake basicamente é pegar em algo que já existiu e fazê-lo de novo. Normalmente, com melhor tecnologia e com um elenco mais diverso.
Na indústria do entretenimento, o léxico para descrever variações deste conceito é muito abrangente: remake, reboot, revival, live-action, remake musical, prequel ou spin-off.
Os remakes não são um fenómeno novo, mas nunca tiveram tão sucesso como agora. Segundo o artigo do The Statesman - Hollywood Franchise Fatigue, 8 dos 10 maiores sucessos financeiros de 2025 foram sequências ou remakes.
Este texto revela ainda que, embora 62% do público afirme preferir histórias originais, os estúdios gastam entre 30% a 50% menos para promover um remake porque o público já sabe exatamente o que vai assistir e não são necessárias grandes estratégias de marketing.
Não é por acaso que vivemos na era dos remakes. O mercado não decidiu recriar jogos, músicas, séries e filmes porque é divertido.
Há uma intenção de negócio que é extremamente lucrativo. E que se basei num único indicador – a saudade. A saudade é o motor dos remakes, é através dela que voltamos a lugares onde fomos muitos felizes.
Quanto mais caótico e imprevisível é o presente, mais nos agarramos ao que já conhecemos. A indústria do entretenimento compreendeu isto muito antes do senso comum. Num mundo com pandemias, crises económicas e políticas, o conforto de um filme ou de uma música que já conhecemos torna-se irresistível.
Em 2025, estima-se que o consumo baseado em referências do passado movimentou centenas de biliões globalmente. As playlists nostálgicas no Spotify cresceram 145% e a hashtag #nostalgia ultrapassou 22 mil milhões de visualizações no TikTok.
A era dos remakes acompanha o regresso ao analógico, num paradoxo curioso: a geração Z sentes saudades de décadas que nunca viveu. Porquê?
Porque os anos 90 e 2000 são esteticamente cool para quem nasceu depois de 2000 – a força do analógico revela-se nas cassetes e telefones de teclas. Mas não só: também representam para os jovens uma promessa de um mundo mais simples e mais calmo.
E a indústria do entretenimento sabe exatamente como explorar esta saudade.
Há uma perspetiva sombria sobre a era dos remakes. E se não for a saudade um dos maiores motores dos remakes, mas sim as condições financeiras.
Por outras palavras, não estará o sistema a beneficiar da produção mundial dos mesmos estúdios, realizadores, artistas e plataformas? Em detrimento de ideias originais?
Adam Mastroianni, doutorado em psicologia, descreve este movimento que beneficia sempre os mesmos produtores como: “Oligopólio Cultural”. A ideia base deste sistema é que o remake é a alternativa de segurança.
Sejas fã ou não de remakes, a verdade é que foram produzidas algumas obras que merecem existir e que se revelaram grandes sucessos, tais como:
Se alguns remakes foram um sucesso, outros levam-nos a questionar o que ia na cabeça de quem os financiou porque foram autênticos desastres, tais como:
Quando falamos na era dos remakes pensamos em cinema e séries. Contudo, a música também entra nesta lógica de “reciclagem”. A grande diferença é que na música as coisas acontecem de forma mais rápida e viral.
O TikTok é um dos principais responsáveis por esta relação com o passado musical. Uma música de 1990 pode aparecer rapidamente num vídeo de 15 segundos, com um novo mix, e tornar-se viral.
O problema para a indústria da música é que esta lógica pode abafar novas vozes e ser um entrave à inovação, diversidade e originalidade.
É fácil apontar o dedo a Hollywood ou a grandes produtoras internacionais, seja no ramo da música, cinema ou videojogos. Mas a verdade é que Portugal não fica fora desta conversa, nem como consumidor nem como produtor.
Basta olharmos para os nossos consumos para concluirmos que Portugal também vive na era dos remakes: músicas dos anos 90 e 2000 em voga no TikTok e salas de cinema cheias sempre que são lançados remakes de grandes produtoras internacionais.
As telenovelas são prova do grande consumo de remakes em Portugal. Muitas das novelas de sucesso foram adaptações autorizadas de originais brasileiros e argentinos. O público português consome produtos que também funcionaram noutros países.
Por exemplo, a TVI em parceria com a Prime Video avançou para um remake da telenovela “Ninguém Como Tu”, adaptando o enredo clássico a uma estética mais moderna, em formato de série, e beneficiando os ritmos do streaming.
Portugal não é apenas um país consumidor, também produz bons remakes. Exemplo disso, é o filme “O Pátio das Cantigas”, um dos filmes portugueses mais vistos de sempre nos cinemas. Os produtores provaram que é possível modernizar o humor e a identidade nacional para todas as gerações.
A boa notícia é que a indústria em Portugal não vive apenas de remakes. Existem criadores portugueses, em todos os campos (cinema, música, séries) que procuram exatamente o oposto: apostam no risco, na voz própria, no contemporâneo.
Estes criadores investem na sua criatividade e preocupam-se com a cultura, não se deixando subjugar apenas ao que já foi feito e ao que parece ser mais fácil e lucrativo.
Estes criadores portugueses preocupam-se com a cultura, promovem-na com a originalidade, com a mudança e com a novidade – quase como um ato político.
As duas coisas e não são mutuamente exclusivas. É verdade que vivemos na era dos remakes porque ficámos sem coragem criativa na indústria. Mas também é verdade que vivemos presos à nostalgia de outros tempos.
Um remake pode ser falta de criatividade, preguiça e o caminho mais fácil para alcançar o sucesso, mas sem grande impacto na vida das pessoas.
Por outro lado, um remake também pode ser uma genuína obra de amor, que acrescenta profundidade e permite que as histórias antigas passem de geração em geração.
Como na vida em geral, um remake deve servir para nos lembrarmos e honrarmos o passado, mas não deve ser a única forma de viver o presente; para isso, precisamos de conhecer novas sensações e viver novas experiências.