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Longe das hashtags românticas e das publicações no Instagram, a violência no namoro continua a ser uma realidade para muitos jovens portugueses. Controlo, perseguição e violência psicológica são os tipos de violência mais normalizados.
Será que é normal controlar os passos da cara-metade? Que o ciúme é prova de amor? Que usar o telemóvel do parceiro sem autorização é normal? E que se deve deixar de sair com amigos quando se está numa relação amorosa?
A violência em contexto de namoro não para de crescer em Portugal. Segundo dados da APAV, nos últimos quatro anos, foram acompanhadas 3.968 vítimas, com cerca de 30% dos casos a envolverem jovens até aos 25 anos.
A violência no namoro não envolve apenas empurrões ou agressões físicas. As formas de violências mais registadas são controlo excessivo, agressões psicológicas, perseguição e violência sexual. Mas não são as únicas!
A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta –, no âmbito do Projeto ART'THEMIS+, desenvolveu um estudo com jovens entre os 12 e 21 anos, sobre a violência no contexto de namoro. Os resultados são preocupantes.
Do total de jovens inquiridos, 68% legitimam comportamentos abusivos e 66,7% experienciaria algum tipo de violência. A maior parte das vítimas são do sexo feminino, mas também existem vítimas do sexo masculino.
A violência no namoro não é uma discussão ocasional, uma birra, ou um episódio de mau humor. É qualquer comportamento que tenha o objetivo de controlar, dominar ou ferir o parceiro dentro de uma relação afetiva.
O objetivo do agressor é exercer poder e medo sobre o parceiro, anulando a sua liberdade e autoestima; acabando por transformar um porto seguro num espaço de insegurança.
É a violência mais evidente, incluindo qualquer comportamento que tenha a intenção de magoar, aleijar ou ferir o parceiro. Tais como: bofetadas, puxar o cabelo, empurrões, beliscões, agarrar com força ou atirar objetos à outra pessoa.
Qualquer comportamento com o objetivo de rebaixar, controlar, humilhar e fazer a outra pessoa sentir-se mal com ela própria e até com os outros; palavras que deixam cicatrizes.
Inclui: insultar, difamar, gritar, ameaçar, partir objetos intencionalmente, usar o telemóvel sem consentimento, não deixar sair com amigos, escolher as roupas que veste, impedir contactos com outras pessoas, fazer sentir-se inferior, burro ou incapaz, entre outros.
Todos os comportamentos sexualizados sem o consentimento da outra pessoa. Comportamentos como: beijos, apalpadelas ou toques não consentidos, forçar a iniciar atividade sexual ou a ter práticas sexuais indesejadas, entre outos.
A evolução tecnológica gerou um novo tipo de violência no namoro, que tem vindo a aumentar exponencialmente, e que inclui: controlar passwords, verificar históricos de viagens TVDE, perseguir online, partilhar fotos e vídeos sexuais, entre outros.
Qualquer comportamento que envolva perseguir outra pessoa, seja através de tentativas de comunicação, vigilância ou assédio; causando ansiedade e medo.
Exemplos de stalking: aparecer em locais constantemente frequentados pela outra pessoa, enviar presentes não desejados, seguir a outra pessoa em vários contextos, vigiar permanentemente, entre outros.
Muitas vezes, o ser humano é incapaz de reconhecer que é violento ou que está a sofrer de violência no namoro. Isto acontece por causa da falta de educação, influência das redes sociais, romantização do ciúme e normalização de comportamentos.
Ainda existe pouca educação nos jovens sobre relações saudáveis e respeito mútuo. Muitas vezes, as vítimas cresceram num contexto em que comportamentos agressivos eram considerados normais – por isso, normalizam-nos na sua própria relação.
As redes sociais têm muita influência sobre os jovens, e muitas vezes promovem dinâmicas tóxicas como se fossem desejáveis.
Por exemplo, se o algoritmo partilha vídeos onde o ciúme agressivo é editado com música romântica, o jovem passa a normalizar esse comportamento obsessivo.
Assim como nas redes sociais, os filmes e as músicas também vendem a ideia de que o ciúme é romântico, uma prova de amor incontestável. Os jovens acreditam neste pensamento romântico, distante da realidade.
A violência no namoro começa muito antes do primeiro empurrão. Os comportamentos abusivos começam devagar e instalam-se gradualmente na relação.
Esta agressividade que se infiltra aos poucos não nos permite ver com clareza, aceitando o comportamento do nosso parceiro como um caso isolado.
A violência no namoro quase nunca se manifesta logo no início, mas revela-se aos poucos, e vai crescendo com uma bola de neve. Abaixo, partilhamos contigo os três principais sinais de alerta que não deves mesmo ignorar.
Se a tua cara-metade diz que tem ciúmes porque te ama, não é verdade. O ciúme não é uma prova de amor, é uma prova de insegurança e posse. Claro que pode haver um ciúme pontual e controlado. Mas o ciúme constante é uma red flag.
Por isso, se o teu parceiro controla com quem falas, decide o que vestes e onde andas, isso não é cuidado nem tão pouco amor. É controlo coercivo – uma das principais formas invisíveis de violência.
No início, tudo parece perfeito. Está com as atenções todas focadas em ti, envia-te uma mensagem a cada 5 minutos, quer saber tudo sobre ti e faz declarações públicas constantes – o chamado Love Bombing.
Mais tarde, pode transformar-se em perseguição digital (cybertalking), exigindo passwords, controlo das redes sociais e telemóvel. E, em casos mais graves, pode fazer pressão para a partilha de conteúdos íntimos.
Neste sentido, se sentes que está sempre a querer saber tudo sobre ti a todo o instante, e não te deixa respirar um único minuto, presta atenção e tenta perceber as intenções antes mesmo de serem claras.
A violência psicológica é uma das formas mais destrutivas numa relação amorosa, causando sérios problemas na saúde mental da vítima: ansiedade, medo, depressão, baixa autoestima, entre outros.
Se numa discussão com a tua cara-metade sais constantemente a questionar a tua própria memória ou sanidade, podes estar a ser vítima de manipulação.
Frases como: “estás a imaginar coisas”; “és demasiado sensível”; “eu nunca disse isso”; “a culpa é tua”, podem ser alertas de manipulação. O contexto da conversa é importante. Não estamos a falar de situações pontuais, mas de abordagens recorrentes.
Há vários casos de violência no namoro, e nem sempre é fácil identificar uma relação abusiva. Há vários indicadores que podem ajudar nesta identificação, segundo o relatório da CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género).
Além disso, alguns exercícios de autoconhecimento podem ser fundamentais para compreendermos se estamos a viver uma relação saudável ou abusiva.
Na tua Relação Sentes Que:
É uma das decisões mais corajosas e difíceis que podes fazer por ti. Não é fácil, mas vai ajudar-te a viver a vida com mais alegria e menos preocupações. É fundamental que sigas os seis passos, sem saltar nenhum deles.
Os agressores fazem muitas vezes com que as vítimas se sintam responsáveis, sobretudo através de violência psicológica. É importante que compreendas que a culpa não é tua.
Mesmo que possas ter cometido algum erro, nada justifica nenhum tipo de violência no namoro. Os problemas resolvem-se com conversas honestas e calmas.
Não guardes para ti. Fala com um amigo, um familiar, professor ou profissional de saúde. Falar com alguém de confiança vai ajudar-te a sentires mais calma, a receberes apoio emocional e teres uma perspetiva diferente da tua relação.
Guarda mensagens, emails, e fotografias/vídeos de lesões. É importante que o faças com discrição e que partilhes a informação com alguém de confiança. Se decidires avançar legalmente vão ser importantes para testemunhar os abusos que sofreste.
Em caso de perigo imediato, liga para o 112.
Bloqueia as redes sociais, muda as passwords, número de telemóvel e, se necessário, a fechadura de casa. Pede alguém de confiança que te ajude neste processo e te acompanhe para não estares sozinho/a.
Terminar relações pode ser muito perigoso, por isso deve haver um planeamento cuidado e, de preferência, com apoio profissional. Grande parte dos crimes de violência no namoro são cometidos por ex-namorados.
Recentemente, por exemplo, uma notícia deu conta de um homem que ligou o gás do fogão e ameaçou a ex-namorada com uma faca dizendo que a matava. Este tipo de violência deve ser evitado com um planeamento de segurança e apoio profissional.
Há prossionais especializados em violência no namoro que podem ajudar no processo de desvinculação, apoio emocional, e recuperação.
O amor verdadeiro não vem acompanhado de medo, controlo ou diminuição. O amor verdadeiro respeita, encoraja e liberta. Não é prisão, submissão, medo.
Numa relação amorosa não pode haver espaço para qualquer tipo de controlo. Ele/ela não te ama porque tem ciúmes de toda a gente e tem acesso às tuas passwords ou ao histórico do TVDE. Tem ciúmes de toda a gente e controla-te porque quer ter a tua posse.
A violência no namoro é preocupante em Portugal, sobretudo entre os jovens – 68% legitimam pelo menos um tipo de violência. Isto é assustador!
Se és uma das vítimas, ou conheces alguém a viver nesta situação, é importante que saibas que violência em contexto de namoro é um crime de violência doméstica em Portugal, garantindo proteção legal às vítimas.
Denuncia, liberta-te, pede ajuda aos teus amigos, familiares, profissionais ou professores, não aceites que te rebaixem, que te controlem. És um ser humano individual e independente. E, acima de tudo, lembra-te que nunca estarás sozinho/a!