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E se uma simples pergunta pudesse fazer alguém sentir que não está sozinho? “Está tudo bem?”. É uma pergunta curta. Daquelas que fazemos quase automaticamente, muitas vezes sem esperar verdadeiramente pela resposta.
Mas, por vezes, pode ser uma das perguntas mais importantes que fazemos.
Nem sempre quem está em sofrimento o demonstra. Nem sempre há sinais evidentes, nem sempre existe uma frase de despedida, um pedido de ajuda ou uma explicação.
Há pessoas que continuam a trabalhar, a treinar, a estudar, a sair com amigos e a publicar nas redes sociais enquanto, por dentro, sentem que querem desistir.
É por isso que o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, assinalado todos os anos a 10 de setembro, continua a ser tão necessário. Não para falar sobre o tema apenas durante um dia. Mas para abrir uma conversa que precisa de ser ouvida.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, em todo o mundo. Em 2021, estima-se que cerca de 727 mil pessoas tenham perdido a vida desta forma.
O suicídio é também a terceira principal causa de morte entre os jovens dos 15 aos 29 anos, a nível mundial.
São números difíceis de ler. Mas é importante não esquecer aquilo que os números não conseguem mostrar: atrás de cada estatística existe uma pessoa, uma família, amigos, colegas e uma comunidade inteira afetada por essa perda.
E há outro dado fundamental: por cada morte por suicídio, existem muitas mais pessoas que fazem tentativas ou vivem com pensamentos suicidas.
Por isso, falar de prevenção não é apenas falar de números.
E, acima de tudo, é falar da possibilidade de intervir antes que seja demasiado tarde.
É importante dizê-lo claramente: o suicídio é complexo e multifatorial. Não existe uma única causa que explique porque uma pessoa chega a um ponto de sofrimento tão intenso.
A OMS identifica diferentes fatores que podem estar envolvidos, incluindo fatores psicológicos, sociais, culturais, biológicos e ambientais.
Em alguns casos, existe uma doença mental diagnosticada. Noutros, há situações de crise, perda, violência, isolamento ou dificuldades financeiras.
E, muitas vezes, diferentes fatores acumulam-se ao mesmo tempo.
Hoje, vivemos também num contexto social que pode aumentar a pressão sobre a saúde mental.
Experiências de violência, abuso ou relações marcadas pelo controlo e pelo medo podem ter consequências profundas na saúde mental. Ninguém deveria ter de enfrentar estas situações sozinho.
A escola e a internet podem ser espaços de aprendizagem e ligação, mas também podem transformar-se em locais de exclusão, humilhação e violência.
E, no mundo digital, muitas vezes não existe um verdadeiro “fim do dia”: aquilo que começa na escola pode continuar no telemóvel durante a noite.
Vivemos numa época em que somos permanentemente expostos à vida dos outros:
Mas aquilo que vemos online é, muitas vezes, uma versão selecionada da realidade.
Comparar constantemente os bastidores da nossa vida com os melhores momentos dos outros pode aumentar sentimentos de inadequação, solidão e fracasso.
Problemas financeiros, desemprego, precariedade e insegurança podem gerar níveis elevados de stress e ansiedade.
A saúde mental também é influenciada pelas condições em que vivemos. Não podemos falar de bem-estar emocional sem falar de habitação, trabalho, segurança e estabilidade.
A cultura do “estar sempre disponível” tornou-se, para muitas pessoas, quase normal:
Mas ninguém é uma máquina. O burnout e o esgotamento emocional não devem ser encarados como uma medalha de produtividade.
Descansar não é desistir. Pedir ajuda não é fraqueza. E estabelecer limites não significa falta de ambição.
A prevenção do suicídio exige também que olhemos para alguns padrões sociais profundamente enraizados.
Ainda existe a ideia de que um homem deve ser forte, aguentar tudo, não chorar e resolver os seus problemas sozinho.
Mas ninguém deveria ter de provar força através do silêncio. Falar sobre emoções não torna ninguém menos forte. Pedir ajuda não diminui ninguém. E vulnerabilidade não é o oposto de coragem. Talvez seja precisamente uma das suas formas.
Precisamos de criar espaços onde seja normal dizer “Não estou bem.”
É fácil dizer que “as redes sociais são a causa” da maior parte dos casos de suicídio. Mas a realidade é mais complexa.
As redes sociais podem contribuir para experiências negativas, como comparação constante, cyberbullying ou exposição a conteúdos prejudiciais. Ao mesmo tempo, também podem criar comunidades, reduzir o isolamento e facilitar o acesso a informação e apoio.
O desafio está em perceber como, quando e porquê as utilizamos.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
Depois de passar algum tempo online, sinto-me mais ligado aos outros, ou mais sozinho? A literacia digital e emocional torna-se, por isso, cada vez mais importante.
Porque proteger a saúde mental no mundo atual também passa por aprender a colocar limites no mundo digital.
Este é um dos mitos mais persistentes, e mais perigosos. Falar sobre suicídio de forma responsável, cuidadosa e sem julgamento não significa incentivar o comportamento suicida.
Pelo contrário: uma conversa empática pode criar uma oportunidade para que alguém expresse aquilo que está a sentir e procure ajuda.
Às vezes, não sabemos o que dizer. E está tudo bem. Não precisamos de ter a frase perfeita.
Podemos começar por perguntas simples:
O mais importante é ouvir. Sem minimizar. Sem julgar. Sem transformar imediatamente a conversa numa palestra.
Frases como “tens de ser forte”, “isso passa” ou “tens tanta coisa boa na vida”, apesar de muitas vezes serem ditas com boas intenções, podem fazer uma pessoa sentir que o seu sofrimento não está a ser compreendido.
Nem sempre conseguimos resolver o problema. Mas podemos ajudar alguém a perceber que não precisa de o enfrentar sozinho.
A prevenção do suicídio não depende de uma única medida.
A OMS identifica várias estratégias baseadas na evidência, incluindo:
Mas a prevenção também acontece nas pequenas coisas do dia a dia.
Acontece quando:
Não precisas de ser psicólogo ou profissional de saúde para demonstrar preocupação.
Podes começar por:
E uma coisa importante: não tens de carregar esta responsabilidade sozinho. Se acreditas que alguém está em perigo ou numa situação de crise, procura apoio especializado.
Não devemos esperar que alguém chegue ao limite para começar a falar sobre saúde mental. A prevenção também passa por construir uma vida com mais apoio, ligação e espaço para respirar.
Pode passar por:
Não existe uma fórmula mágica. Mas existe algo importante: ninguém deveria sentir que tem de enfrentar tudo sozinho.
Neste Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, vamos mudar a narrativa!
Talvez não possamos resolver todos os problemas de alguém. Talvez não saibamos sempre o que dizer. Talvez tenhamos medo de fazer a pergunta errada.
Mas podemos começar. Podemos ouvir. Podemos ficar. Podemos perguntar novamente. Podemos ajudar alguém a chegar até ao apoio de que precisa.
No Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, a mensagem não deve ser apenas “fala sobre isto”. Deve ser também: “Se falares, haverá alguém disposto a ouvir.”
Porque uma conversa pode não resolver tudo. Mas pode abrir uma porta. Pode quebrar o isolamento. Pode criar tempo. Pode aproximar alguém da ajuda.
E, por vezes, perguntar genuinamente “como estás?”, e ficar para ouvir a resposta, pode ser o início de algo muito importante. Não precisamos de ter todas as respostas. Mas podemos escolher não ficar em silêncio.
Felizmente, existem vários recursos de apoio disponíveis em Portugal para auxiliar na prevenção do suicídio.
A Linha Nacional de Prevenção do Suicídio, através do número 1411, presta apoio especializado a pessoas em sofrimento psicológico ou em risco de suicídio.
É um serviço gratuito, integrado na resposta nacional de saúde mental e articulado com o SNS 24.
A SOS Voz Amiga presta apoio emocional a pessoas que precisam de falar e ser ouvidas.
A Linha SNS 24 pode ajudar a orientar situações de saúde e disponibiliza também serviços de aconselhamento psicológico e encaminhamento para a resposta adequada.
Se precisares de ajuda, contacta:
Se estás a passar por um momento difícil, fala com alguém de confiança e procura apoio. Não tens de enfrentar isto sozinh@.
Pedir ajuda não é exagerar. Não é incomodar. Não é “dar trabalho”. É cuidar da vida.