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Já alguma vez fizeste scroll no Instagram e ficaste a pensar: “Será que esta pessoa é real?” Não é só a edição de fotos - muitas vezes, não existe mesmo. Estamos a falar dos influencers criados por inteligência artificial (IA), personagens digitais que parecem humanos, mas nasceram de linhas de código, modelagem 3D e algoritmos.
Estas figuras estão a ganhar espaço nas campanhas de marketing e nas conversas de consumidores. Lil Miquela, por exemplo, tem mais de 2,5 milhões de seguidores, já “posou” para a Prada e até lançou música. E o detalhe mais curioso? Muitos fãs interagem com ela como se fosse uma pessoa real.
O fenómeno levanta questões: será que vamos confiar em “rostos” digitais para nos recomendar produtos? Ou será que os humanos nunca perderão esse lugar de autenticidade?
Os pioneiros surgiram entre 2016 e 2018, quando empresas de tecnologia perceberam que podiam criar “pessoas” perfeitas para o marketing.
Lil Miquela: criada pela startup Brud, mistura estética futurista com causas sociais. Ela fala sobre racismo, igualdade de género e moda, o que a torna quase indistinguível de um influencer humano.
Shudu Gram: conhecida como a “primeira supermodelo digital”, criada pelo fotógrafo Cameron-James Wilson. Tem campanhas com Balmain e Fenty Beauty.
Lu do Magalu: criada pela empresa brasileira Magazine Luiza, começou como assistente virtual e tornou-se uma das influencers digitais mais seguidas do mundo, com milhões de seguidores em várias redes.
Estas personagens digitais não são apenas “bonecos animados”. São tratadas como personalidades, com estilos de vida, opiniões e até dramas próprios.
Para uma marca, trabalhar com um influencer de IA tem vantagens difíceis de ignorar:
100% de controlo: não há risco de declarações polémicas em entrevistas, posts inapropriados ou escândalos pessoais.
Disponibilidade total: um influencer virtual nunca fica doente, nunca atrasa entregas e pode aparecer em qualquer parte do mundo com um clique.
Personalização extrema: pode ser moldado à imagem e valores da marca, desde a forma de vestir até à forma de comunicar.
Um diretor de marketing da Calvin Klein comentou numa entrevista: “Trabalhar com Lil Miquela foi como ter um influencer de topo, mas com a certeza de que cada detalhe da mensagem estaria alinhado com a marca.”
É aqui que o tema fica interessante. As reações do público oscilam entre fascínio e desconfiança.
Por um lado, muitos seguem estas figuras pela estética futurista, pelo humor ou pela curiosidade. Um estudo da HypeAuditor mostrou que os influencers de IA têm taxas de engagement até 3 vezes superiores às dos humanos, sobretudo junto da geração Z.
Por outro, há quem questione: “Se sei que não existe, porque vou acreditar no que está a promover?” A falta de autenticidade pode afastar consumidores que valorizam experiências reais.
A influencer digital Imma, criada no Japão, chegou a ser “apanhada” em situações caricatas: fãs tentavam marcar encontros reais com ela sem perceber que era uma personagem.
Quando a Shudu apareceu numa campanha da Fenty Beauty, muitos consumidores acreditaram que se tratava de uma modelo real e questionaram porque não tinha sido creditada.
A Lu do Magalu é tão presente nas redes no Brasil que muitas pessoas só recentemente descobriram que não existe. Ainda assim, gera empatia e confiança, respondendo a comentários e interagindo com seguidores em tempo real.
Em 2020, a Lil Miquela publicou no Instagram que tinha “sido hackeada” por outra influencer virtual, Bermuda. A rivalidade era, claro, encenada, mas criou um buzz enorme, como se fosse um reality show digital.
O humor, o drama e a estética futurista são ingredientes que alimentam o interesse.
Nem tudo são likes e campanhas milionárias. Especialistas alertam para riscos que não podem ser ignorados:
Confiança abalada: quando um consumidor descobre que a “pessoa” que seguia não existe, pode sentir-se enganado.
Questões éticas: usar uma influencer digital para falar de causas sociais pode parecer contraditório, já que não tem vivências humanas.
Impacto na autoimagem: se já é difícil competir com filtros, como será com “pessoas” criadas para serem perfeitas?
Um artigo da Harvard Business Review destacou que a fronteira entre realidade e ficção vai exigir novas regulamentações de transparência. Imagina um selo obrigatório: “Este post foi feito por uma personagem de IA”.
É pouco provável que os influencers humanos desapareçam. A autenticidade, o carisma e a vulnerabilidade reais são insubstituíveis. Mas os virtuais vieram para ficar.
O mais provável é vermos um ecossistema híbrido: campanhas com humanos e avatares digitais a interagir, como já acontece em videojogos ou no metaverso.
Alguns especialistas até apontam que, no futuro, poderemos “criar” o nosso próprio influencer digital personalizado, programado para refletir os nossos gostos e recomendações.
Os influencers de IA são o reflexo de uma era em que tecnologia e cultura digital estão totalmente entrelaçadas. Para uns, são um passo excitante rumo ao futuro; para outros, um alerta sobre o risco de perdermos autenticidade.
O certo é que já conquistaram espaço no marketing e na imaginação de milhões de seguidores. E se até há pouco tempo nos perguntávamos “quem é a próxima celebridade a nascer no YouTube ou TikTok?”, hoje podemos perguntar: “Quem será a próxima estrela a nascer… de um algoritmo?”