PLANO DE TREINO
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Já alguma vez te perguntaste porque é que o teu colega de treino come hidratos como se não houvesse amanhã e fica definido, enquanto tu só de olhares para um pão sentes que engordaste? Ou porque é que aquele teu amigo bebe cinco cafés por dia e dorme como um anjo, mas tu, com uma bica depois do almoço, ficas a contar ovelhas até às 4 da manhã?
A resposta não está na força de vontade nem em nenhum segredo milagroso. A resposta, está escrita no teu código genético.
Bem-vindo ao mundo da Nutrigenómica, um nome complicado para uma ideia muito simples, perceber como os teus genes únicos reagem à comida que lhes dás.
Esquece as dietas da moda que servem para toda a gente (e que, no fundo, não servem para ninguém). Estamos a falar de um plano alimentar feito à medida do teu ADN, literalmente.
Neste artigo, vamos simplificar esta palavra cara e mostrar-te como é que os teus genes mandam na tua dieta, com exemplos que vais reconhecer no teu dia a dia. Prepara-te para descobrir porque é que a tua genética pode ser a chave para desbloquear os teus resultados no ginásio e na vida.
Vamos pôr isto em pratos limpos. Nutrigenómica (ou nutrigenética, são primos direitos) é uma ciência que mistura nutrição com genética. Imagina que o teu corpo é um carro de alta competição logicamente a comida é o combustível. A nutrigenómica é o manual de instruções ultra-detalhado que te diz qual é o combustível exato que faz o teu motor funcionar à máxima potência e sem avarias.
Ao contrário dos planos alimentares genéricos, que são como dar o mesmo combustível a um Ferrari e a um trator, a nutrição de precisão cria uma solução depois de olhar para o teu perfil genético.
A nutrigenética diz-te se o teu corpo queima gorduras como um foguete ou se as armazena como um urso a preparar-se para hibernar.
A ideia é simples: o que funciona para um, pode ser um desastre para outro. E a culpa é dos teus genes.
Ok, a teoria é gira, mas como é que isto funciona na vida real? É mais simples do que parece. Os teus genes produzem "trabalhadores" que processam tudo o que comes. Se os teus "trabalhadores" são rápidos e eficientes para uma tarefa, ótimo. Se são mais lentos, vais sentir os efeitos.
Conheces o gene CYP1A2? Provavelmente não, e já sabemos que parece um robot do Star Wars mas ele conhece-te bem. É ele o grande responsável por metabolizar cerca de 95% da cafeína que consomes.
Isto pode ser a tal razão para o teu amigo beber três expressos e tu, com um descafeinado, já sentes o efeito. A culpa não é tua, é do teu CYP1A2.
Aqui a estrela é o gene LCT. A função dele é produzir lactase, a enzima que digere o açúcar do leite a famosa lactose.
Saber isto pode poupar-te anos de má disposição sem perceberes porquê.
E que tal o gene APOA2? Este pequeno influencia a forma como o teu corpo reage às gorduras saturadas tipo bacon e batatas fritas.
Estudos mostraram que pessoas com uma certa variante deste gene, quando comem muita gordura saturada, têm uma tendência muito maior para ganhar peso e ter um Índice de Massa Corporal (IMC) mais alto. Para outras pessoas com uma variante diferente, o efeito não é tão pronunciado.
Ou seja, para ti, cortar nas gorduras saturadas pode ser a chave para perder peso, enquanto para o teu parceiro de treino pode não fazer grande diferença.
Sempre te disseram para comeres os vegetais, mas tu não consegues mesmo engolir couves-de-bruxelas ou brócolos? Pode não ser frescura, pode ser genética. O gene TAS2R38 funciona como um detetor de sabores amargos.
Esta sensibilidade explica porque é que forçar uma criança ou um adulto a comer certos vegetais pode ser, e quase sempre é, uma batalha perdida. A solução não é forçar, mas sim encontrar outros vegetais que o teu paladar genético aceite melhor.
Aquele impulso de comer um gelado inteiro depois de um dia mau? Sim podes culpar a tua genética.
Genes como o FTO o famoso "gene da obesidade" e o DRD2 (igado à dopamina, o neurotransmissor do prazer influenciam aquilo que fazes, também na parte alimentar.
Certas variantes destes genes podem ter uma predisposição maior para a "fome emocional". Ou seja o cérebro delas está, de certa forma, programado para procurar recompensas rápidas em alimentos calóricos quando se sente em baixo, conheces alguém assim?
Não é falta de disciplina, é uma resposta neurológica que te empurra para o açúcar e para a gordura como forma de conforto. Reconhecer esta tendência é o primeiro passo para criar estratégias que não envolvam comida para lidar com o stress. O truque está em deixar essas comidas no supermercado.
A ligação entre o que comemos e como nos sentimos é cada vez mais clara, e como acabaste de ler a genética está no centro desta conversa.
O teu bem-estar mental não depende só de fatores externos, depende muito de como o teu corpo processa as mensagens que mandas para o cérebro, os neurotransmissores.
É aqui que entra o gene COMT. Este gene tem a tarefa de "limpar" a dopamina do cérebro.
Onde é que a comida entra aqui? A atividade do gene COMT depende de nutrientes como o magnésio e as vitaminas do complexo B.
Uma pessoa com a variante "Estratega" pode beneficiar muito de uma dieta rica nestes nutrientes para ajudar o seu sistema a lidar melhor com o stress.
Ou seja, a tua dieta pode ser uma ferramenta poderosa para equilibrar a tua química cerebral, de acordo com as tuas predisposições genéticas. Há mesmo muito que podes fazer.
"Ok, já percebi que é importante. Agora como é que eu sei o que os meus genes dizem?" É aqui que entram os testes genéticos.
Hoje em dia, com uma simples amostra de saliva, laboratórios conseguem analisar o teu ADN e procurar estas variantes específicas. No final, recebes um relatório que é, basicamente, o teu próprio manual instruções personalizado.
Esse relatório pode dizer-te coisas como:
Um aviso importante: Estes testes são uma ferramenta poderosa, mas deixa quem sabe ler o que lá diz. É fundamental que os resultados sejam interpretados por um profissional seja nutricionista ou médico. Eles vão cruzar a informação genética com os teus objetivos, estilo de vida e estado de saúde atual para criar um plano que realmente funcione para ti. Não te metas em caminhos apertados.
Alinhar a tua dieta com a tua genética não é só uma moda, é também muito inteligente.
A nutrigenómica veio para acabar com as dietas iguais para todos se o teu corpo é único, a tua alimentação também tem de ser.
Atenção, não precisas de te tornar um cientista, mas perceber que a tua genética tem uma palavra a dizer é o primeiro passo para uma versão de ti mais inteligente e personalizada ao fitness e à saúde, tanto física como mental.
A mensagem final é esta: ouve o teu corpo, mas se tiveres oportunidade, "lê" o teu ADN. Consulta um especialista e começa a tomar decisões informadas sobre o que metes no prato.
Cada refeição pode ser um passo na direção certa para o corpo que queres.
O teu plano ideal está escrito dentro de ti.