PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Há uma altura do ano em que parece que toda a gente precisa de voltar ao ritmo habitual. Depois de semanas com horários mais flexíveis, dias de praia, viagens, noites mais longas e manhãs sem despertador, chega o momento de regressar ao trabalho, aos estudos, ao ginásio e às responsabilidades do dia a dia.
Para algumas pessoas, essa mudança acontece naturalmente. Para outras, voltar à rotina pode parecer quase uma segunda-feira interminável.
O problema não está necessariamente na falta de vontade. Depois de uma pausa, o corpo e a cabeça precisam de algum tempo para se adaptar novamente aos horários, às obrigações e às tarefas que ficaram em segundo plano durante as férias.
E é precisamente nesta fase que ter alguém por perto pode fazer diferença.
Um amigo que combina contigo um treino. Um colega que te desafia a voltar às aulas. O parceiro que te acompanha numa caminhada. Ou simplesmente alguém que pergunta como está a correr o regresso à rotina.
Porque, muitas vezes, voltar aos hábitos que nos fazem bem é mais fácil quando não sentimos que estamos a fazê-lo sozinhos.
Durante as férias, as nossas rotinas mudam. Podemos dormir mais tarde, fazer refeições a horas diferentes, passar mais tempo fora de casa e deixar algumas responsabilidades para depois.
E isso faz parte de descansar.
O problema surge quando tentamos passar diretamente de um ritmo descontraído para uma rotina completamente preenchida.
De repente, é preciso acordar cedo, cumprir horários, trabalhar, tratar de tarefas domésticas, responder a mensagens, organizar refeições e encontrar tempo para fazer exercício.
A sensação pode ser de que existem demasiadas coisas para fazer e poucas horas disponíveis.
Por isso, o regresso não precisa de acontecer de forma perfeita. É normal precisar de alguns dias para recuperar horários e voltar a encontrar um ritmo confortável.
Em vez de tentar recuperar tudo de uma vez, pode ser mais eficaz começar pelas pequenas coisas que ajudam a organizar novamente o dia.
E é aqui que o apoio de outras pessoas pode tornar o processo mais simples.
Existe uma ideia de que, para começar ou recomeçar um hábito, precisamos primeiro de sentir motivação.
Na realidade, muitas vezes acontece precisamente o contrário.
Esperamos pela vontade de treinar, pela vontade de cozinhar melhor, pela vontade de acordar mais cedo ou pela vontade de voltar a uma determinada atividade. Enquanto essa motivação não aparece, continuamos a adiar.
Quando temos alguém envolvido, porém, a situação muda.
Se combinaste ir treinar com um amigo às 18h, já não depende apenas da tua vontade naquele momento. Existe um compromisso. Alguém está à tua espera.
Isso não significa que essa pessoa tenha de controlar a tua rotina ou obrigar-te a fazer alguma coisa. Significa apenas que ter companhia pode ajudar a ultrapassar aquela primeira barreira que tantas vezes aparece quando estamos a tentar retomar um hábito.
Depois de começar, muitas vezes a motivação surge naturalmente.
Fazer exercício acompanhado pode tornar uma atividade mais agradável, mas os benefícios vão além da diversão.
Quando partilhamos uma atividade com alguém, existe uma sensação de compromisso que pode facilitar a manutenção do hábito. É mais fácil adiar um treino quando só dependemos de nós próprios. Quando outra pessoa está envolvida, pensamos duas vezes antes de cancelar.
Além disso, ter companhia pode tornar os momentos menos exigentes.
Uma caminhada pode transformar-se numa oportunidade para conversar. Uma aula de grupo pode ser também um momento de convívio. Um treino pode acabar por ser a desculpa para passar algum tempo com alguém de quem gostamos.
Desta forma, a atividade deixa de estar associada apenas ao esforço e passa também a estar ligada a uma experiência positiva.
E quanto mais agradável for uma rotina, maior pode ser a vontade de continuar.
Muitas pessoas associam o regresso à rotina à necessidade de voltar imediatamente ao treino com a mesma intensidade de antes.
Depois de semanas com menos atividade, essa pressão pode ter precisamente o efeito contrário.
Se pensarmos que temos de recuperar todos os treinos perdidos, fazer sessões longas e cumprir um plano rigoroso desde o primeiro dia, é natural que a tarefa pareça demasiado pesada.
Quando treinamos com alguém, podemos começar de forma mais descontraída.
Uma caminhada, uma aula de grupo ou um treino curto já podem ser suficientes para voltar a criar o hábito.
O objetivo inicial não precisa de ser atingir o melhor desempenho. Pode simplesmente ser voltar a mexer o corpo e recuperar a sensação de que a atividade física faz parte da nossa semana.
Ter alguém envolvido numa rotina cria aquilo que podemos chamar de responsabilidade partilhada.
Se combinaste uma caminhada para determinado dia, existe uma maior probabilidade de cumprires esse compromisso. Não porque tenhas obrigação perante a outra pessoa, mas porque sabes que alguém está a contar contigo.
Esta pequena diferença pode ser importante nos dias em que a vontade desaparece.
É claro que não devemos depender permanentemente dos outros para manter hábitos. A autonomia continua a ser importante. Mas, sobretudo durante fases de transição, ter alguém que nos acompanha pode funcionar como um incentivo extra.
Às vezes, precisamos apenas de alguém que diga: "Vamos?"
Ter companhia não significa que duas pessoas tenham de ter exatamente os mesmos objetivos.
Um amigo pode querer melhorar a resistência enquanto o outro prefere ganhar força. Uma pessoa pode gostar de correr e outra preferir caminhar. Uma pode querer voltar ao ginásio e outra sentir-se mais confortável numa aula de grupo.
Ainda assim, é possível encontrar pontos em comum.
Podem treinar juntos durante parte da sessão, fazer uma caminhada, experimentar uma atividade nova ou simplesmente combinar horários semelhantes.
O mais importante é encontrar uma forma de apoio que funcione para ambos, sem transformar a rotina numa competição.
A ideia não é comparar resultados. É ajudar a criar consistência.
Outro erro frequente é acreditar que regressar à rotina significa voltar exatamente ao ponto onde estávamos antes das férias.
Mas o corpo pode estar diferente. Os horários podem ter mudado. As prioridades podem ser outras.
Talvez antes das férias treinasses quatro vezes por semana e agora só consigas começar com duas.
Isso não significa que estejas a fazer menos do que devias. Significa apenas que estás a adaptar a rotina à realidade atual.
Tentar fazer demasiado logo no início pode criar cansaço e frustração. Começar com objetivos realistas permite criar novamente o hábito sem transformar o regresso numa fonte de pressão.
E, quando a rotina estiver novamente estabilizada, podes aumentar gradualmente a intensidade.
Nem sempre precisamos de grandes planos para voltar a uma rotina.
Às vezes, basta combinar uma atividade concreta.
"Na quarta-feira vamos caminhar."
"Na sexta-feira treinamos juntos."
"Domingo de manhã vamos experimentar aquela aula."
São compromissos simples, mas ajudam a transformar uma intenção numa ação.
Também pode ser útil definir objetivos pequenos durante as primeiras semanas. Em vez de pensar em tudo aquilo que gostarias de mudar, escolhe algumas ações que sabes que consegues cumprir.
Por exemplo, voltar a fazer exercício duas vezes por semana, preparar algumas refeições em casa ou estabelecer novamente um horário de sono mais regular.
Quando essas ações começam a fazer parte do dia a dia, torna-se mais fácil acrescentar outras.
Nem toda a gente tem um amigo ou familiar disponível para acompanhar a sua rotina. E isso não significa que seja impossível encontrar apoio.
As aulas de grupo podem ser uma boa alternativa precisamente porque criam um ambiente onde várias pessoas partilham uma atividade.
Também é possível conhecer pessoas através de modalidades desportivas, caminhadas, corridas ou outras atividades que façam parte dos nossos interesses.
Por vezes, basta começar a frequentar regularmente um determinado espaço para que surjam novas ligações.
E existe ainda outra possibilidade: usar a tecnologia para criar algum sentido de compromisso. Combinar objetivos com amigos que vivem longe, partilhar uma caminhada ou simplesmente contar a alguém que voltámos a treinar pode ajudar a manter a motivação.
Não precisamos necessariamente de estar lado a lado para sentir que estamos acompanhados.
Uma rotina saudável não pode depender de condições perfeitas.
Haverá dias em que o trabalho se prolonga, compromissos aparecem, o cansaço é maior ou simplesmente não temos vontade de fazer aquilo que tínhamos planeado.
Isso não significa que a rotina deixou de funcionar. Significa que a vida aconteceu.
O verdadeiro desafio está em construir hábitos suficientemente flexíveis para sobreviverem a esses momentos.
Ter alguém por perto pode ajudar precisamente aqui. Em vez de desistir depois de uma semana mais complicada, podemos simplesmente ajustar o plano.
Se não foi possível treinar três vezes, talvez seja possível treinar duas. Se não houve tempo para uma sessão completa, pode haver tempo para uma caminhada. A atividade física regular beneficia o corpo e a mente, mesmo quando é feita de forma adaptada à nossa rotina.
O importante é não transformar uma interrupção temporária numa desistência definitiva.
Apesar de muitas vezes associarmos o regresso à rotina a algo negativo, esta fase também pode ser uma oportunidade.
Depois das férias, podemos olhar para os nossos hábitos com alguma distância e perceber o que estava realmente a funcionar.
Talvez tenhamos percebido que gostamos mais de caminhar do que de correr. Talvez uma determinada aula nos tenha dado mais motivação. Ou talvez tenhamos percebido que uma rotina demasiado exigente não era sustentável.
Não é necessário recuperar exatamente os hábitos que tínhamos antes.
Podemos construir uma rotina nova, mais ajustada àquilo que somos agora.
E fazê-lo acompanhado pode tornar esse processo mais leve.
Voltar à rotina depois das férias nem sempre é fácil. Há horários para recuperar, responsabilidades para reorganizar e hábitos que precisam novamente de espaço no dia a dia.
Mas não é necessário fazer tudo de uma vez.
Começar devagar, definir objetivos realistas e, sobretudo, não sentir que temos de enfrentar esse processo sozinhos pode fazer toda a diferença.
Porque ter alguém que nos acompanha não significa depender dessa pessoa para manter uma rotina. Significa ter apoio nos dias em que é mais difícil começar, companhia quando falta motivação e alguém com quem partilhar pequenas conquistas.
No final, talvez seja precisamente isso que torna uma rotina mais sustentável: perceber que cuidar de nós próprios não precisa de ser uma tarefa solitária.
Às vezes, basta encontrar alguém que caminhe connosco. E, a partir daí, voltar a encontrar o nosso ritmo torna-se muito mais fácil.