PLANO DE TREINO
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“Let’s talk about sex"
Sim, vamos falar sobre sexo! Mas de forma consciente e didática, claro.
Começando por constatar o óbvio, este é um tema que para muita gente continua a ser um tabu, principalmente para as gerações mais velhas; o que leva a que não se fale sobre ele as vezes necessárias para que possa ser normalizado. E quais as consequências disso? Continuarmos a perpetuar comportamentos e padrões ditos “normais”, que de normal não têm nada.
E embora vivamos num contexto político e social que nos permite ser livres de expor os nossos pensamentos e ideias, ao mesmo tempo achamos que este é um tema no qual não vale a pena entrar. E se forem mulheres a falar sobre, então, pior ainda. O estigma, infelizmente, continua.
Precisamos de quebrar isso, falar sem vergonha, ultrapassar barreiras, trazer as nossas dúvidas para cima da mesa. Afinal de contas, é algo natural e que faz parte do dia a dia da maioria das pessoas.
Mas voltando ao que importa, não estamos aqui para falar sobre sexo à toa, ou só porque sim. Há todo um contexto que nos leva a abordar esta temática, e ele inclui questões como a relação da performance sexual com o nosso bem-estar físico e mental. Sim sim, porque a prática sexual não é um ato isolado, ela influencia muita coisa à nossa volta, inclusive a nossa maneira de ser e estar.
Ter ou não ter uma vida sexual ativa e saudável, tem muitos contornos, e é por isso que queremos desmistificá-los.
Hoje em dia dedicamos muito do nosso tempo (e ainda bem!) à construção de um corpo saudável. Isso inclui, obviamente, a prática de exercício físico, de uma alimentação equilibrada e a adoção, por exemplo, de hábitos de sono e descanso inegociáveis.
O porquê de o fazermos? Pode ser porque temos o objetivo de viver num corpo o mais capaz possível, que nos dá qualidade de vida, e aí tudo bem; ou simplesmente por questões estéticas ou pressão exterior, algo que já não é tão positivo.
E quando a relação sexual entra na equação? Aí então, se as intenções não forem as certas, pode ser o descalabro total.
Na maioria das vezes, a forma como olhamos para o nosso corpo é um fator determinante na nossa vida sexual. Se nos sentimos bem com o que vemos, é raro termos qualquer tipo de inibição na hora do sexo. No entanto, se não estamos assim tão à vontade, pode levar-nos a alguns constrangimentos, e até a comportamentos menos positivos.
Trocando por miúdos, se apenas começamos a cuidar-nos para “parecer bem” aos olhos do outro, é meio caminho andado para o flop total. Tanto para nós como para a relação (não só a sexual).
E porquê? Porque não o fazemos por nós, logo, a autoconfiança continua a não estar lá. Estamos a fazê-lo porque, sendo uma situação em que estamos vulneráveis e expostos, temos medo do que o outro possa pensar do nosso corpo.
Agora as perguntas que interessam: e se for “só” uma coisa da nossa cabeça? Uma insegurança nossa? Não será mais fácil se houver comunicação? Se conseguirmos ser transparentes com o nosso parceiro quanto a isso?
Talvez (ou quase de certeza) ele não nos veja com os mesmos olhos que nós nos vemos, e isso até pode ser aquela validação que precisamos para nos sentirmos mais confiantes. #ficaadica
Então chegamos aqui a uma encruzilhada. Porque é que não podemos só tentar desligar o corpo da mente? Porque é impossível.
E a neurociência não só explica isso, como vai mais longe — afirma que o maior órgão sexual que temos é o cérebro.
Portanto, seja em que contexto for, mas principalmente no contexto sexual, é muito difícil, para não dizer impossível, que consigamos desconectar uma coisa da outra.
Ora vejamos: o nosso corpo só reage positivamente se se sentir seguro. Todas as experiências que uma relação sexual saudável pode proporcionar, só serão vividas em pleno se a nossa mente o permitir. Só “deixar ir” é muito raro de acontecer, a menos que não estejamos conscientes do que estamos a fazer (red flag alert!).
Portanto, quando ouvires alguém dizer que só consegue conectar-se fisicamente com outra pessoa, se tiver atração mental ou emocional por ela, não está a inventar desculpas ou a tentar complicar (como dizia o outro, é muito raro, mas acontece sempre).
E agora, as tão aguardadas expectativas. Ui, as expectativas…
Quando falamos do que se espera na hora do sexo, temos de falar inevitavelmente de performance. Isto inclui não só as expectativas que a pessoa tem sobre si própria como sobre o outro.
Dentro deste leque cabe, por exemplo, a ideia do que é um desempenho “desejável”, ou seja, se está a “fazer bem feito”, se consegue dar prazer ao outro, se está em forma o suficiente para prolongar o momento até ao infinito, e por aí fora. E, claro, como se não bastasse esperar isso de si próprio, ainda o espera do outro.
É claro que expectativas vão haver sempre, principalmente quando é uma situação nova, mas para evitar que chegue a um ponto de descontrolo o principal a reter é: não vai ser tudo perfeito. Nem é suposto ser!
Abracem a naturalidade e esqueçam o controlo. Tentar controlar tudo só vai gerar ansiedade e frustração, e aquele que era suposto ser um momento prazeroso transforma-se em algo fake, sem a mínima conexão.
Levantámos um pouco o véu acima, mas agora falamos diretamente sobre a questão: Ansiedade de Performance Sexual. Já ouviram falar? Se não ouviram, deviam.
Não escolhe géneros, acontece com homens e mulheres. E falamos disto porquê? Porque não podíamos falar da performance de uma perspetiva mais positiva, sem antes falarmos deste flagelo que muitos acham normal, só que não.
Muito resumidamente, a ansiedade de performance sexual é quando a pessoa põe tanta pressão para que tudo corra bem, que o corpo fica num estado de alerta e tensão tal, que perde a excitação e se desconecta completamente, acabando muitas vezes por acontecer o oposto. Ou seja, correr tudo mal.
É por isso que é tão importante que exista confiança, para que cada um se sinta à vontade para expor as suas inseguranças, e elevar a experiência sexual a um patamar em que a performance se transforma naquela peça do puzzle que faltava.
Isso só é possível, lá está, se houver intimidade, segurança, desejo mútuo e aquela conexão de milhões. Depois é só juntar as habilidades e a atenção que se dá ao prazer do outro (não esquecer, sff!), à presença e entrega do momento. Só pode correr bem, certo?
Siiim, ainda continuamos a falar de performance. Mas agora de um contexto diferente mas que vai levar-nos onde queremos.
Vivemos numa era em que parece que temos de estar a “performar” a toda a hora. Temos de ser os melhores no trabalho, os melhores no desporto, os melhores nas relações, e até os melhores nas redes sociais. E claro que no sexo não podia ser diferente.
E falando do último, que é para isso que aqui estamos, existe algo que contribui para essa tal “exigência”, e não é de agora. Pois é, é isso mesmo que estás a pensar — a pornografia.
Vivemos há décadas com a ideia do sexo como um espetáculo que tem de ser feito assim ou assado, e se não for daquela maneira, já não presta.
Mas vamos lá olhar para isto com olhos de ver:
Primeiro, a maioria da pornografia é pensada para agradar ao homem (logo aí, começamos mal).
Depois, é algo que está completamente desfasado da realidade, desde sempre. Corpos sempre incríveis, com uma performance invejável (para alguns), situações peculiares e invulgares, enfim.
Pensando bem no assunto, isto acontece na vida real? Claro que não.
No entanto, enraizou-se de tal forma como “exemplos do que é bom sexo”, que ainda hoje é difícil combater esta ideia.
Voltando agora à parte didática que nos trouxe aqui, relacionemos então a relação sexual com o bem-estar.
Portanto, esta relação, se for realmente construtiva e positiva, influencia três partes fundamentais:
Chegamos assim à conclusão de que, ter intimidade sexual com alguém, não é como beber um simples copo de água. Ou pelo menos, aquela intimidade que se quer saudável e satisfatória. Precisamos de alinhar todos os pontinhos, para que não tenhamos razões para nos queixarmos, nem de nós, nem do outro.
Isto não quer dizer, óbvio, que seja para complicar tudo, mas também não quer dizer que nos desleixemos. É encontrar aquele equilíbrio ideal que nem sempre é fácil. Mas afinal, o que é saudável dá (algum) trabalho.