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Fazes parte da maioria que acha o ciclismo um desporto secante, composto por um bando de tipos magros, vestidos com licra ultra apertada, a pedalar durante várias horas seguidas no meio do nada? Ou fazes parte da minoria que ama o ciclismo? E costuma ficar colad@ à televisão a ver o Tour de France?
Todos os anos, ao longo de três semanas, vários atletas escalam montanhas com as suas bicicletas, a velocidades que desafiam as leis da física e que deixariam o teu carro a soltar fumo pelo radiador. Não é apenas uma corrida de bicicletas: é um desporto mundial com alianças secretas, traições, quedas a 70km/h, drama e uma grande dose de resistência e sofrimento.
Neste artigo, vamos mostrar-te por que milhões de pessoas, incluindo muitos jovens, estão ligadas a este desporto e vêm ciclismo todos os anos.
Se achas que o futebol domina todos os desportos, as estatísticas vão deixar-te de boca aberta. O impacto mediático e cultural desta prova é gigantesco, superando a maioria das competições mundiais.
Segundo o relatório mais recente de estatísticas de audiência do Tour de France da Lead Out, esta corrida foi um verdadeiro fenómeno:
Não há outro desporto que seja mais do povo do que o ciclismo. Ao contrário de outros desportos, como futebol, fórmula 1 ou jogos olímpicos, não precisas de vender um rim para conseguires um bilhete na bancada – o Tour de France é 100% gratuito.
Além disso, podes estar a poucos centímetros dos teus ídolos enquanto estes sobem rampas com inclinações absurdas. Este nível de proximidade não se encontra em qualquer desporto.
O convívio também é inacreditável. Cerca de 12 milhões de espectadores viajam pelas estradas francesas, montam caravanas nas encostas dos Pirenéus ou dos Alpes e transformam as montanhas em verdadeiras cidades temporárias.
Muita cerveja, churrasco e paixão pelo ciclismo.
A reputação do ciclismo está associada a gerações mais velhas. No entanto, a Netflix deitou este preconceito por terra através do lançamento da série documental “Tour de France: Unchained (No Coração do Pelotão)”.
Assim, o mundo acedeu aos bastidores sangrentos, às discussões nos carros de apoio e à resistência psicológica dos atletas. Segundo o estudo de impacto da Shift Active Media sobre a série da Netflix, o documentário gerou dezenas de milhões de visualizações bem como rejuvenesceu a base de fãs do desporto.
A série conseguiu provar que o ciclismo também é ideal para entretenimento: por ser rápido, cruel e viciante. Como? Focando-se em rivalidades viscerais, medo constante de quedas e táticas maquiavélicas das equipas.
Não sãos os preços exorbitantes das bicicletas nem as paisagens deslumbrantes da Provence. O que realmente prende as pessoas ao ecrã é a narrativa humana da superação absoluta contra a natureza e o próprio corpo: sofrimento humano, estratégia, e tensão psicológica – como num thriller.
O Tour de France é um palco artístico para quem gosta de assistir ao sofrimento alheio como um voyeur. Afinal, os ciclistas enfrentam montanhas monstruosas num único dia que acumulam mais de 4000 mil metros de desnível.
Algumas subidas duram quase uma hora, com frequências cardíacas a rondar os 190 BPM. É o equivalente a fazer um sprint de intensidade máxima numa passadeira de ginásio inclinada…, mas durante 40 minutos e depois de já terem pedalado 150 km.
E em relação às quedas? Noutros desportos, como no futebol, vemos um toque no tornozelo e o jogo fica parado durante 3 minutos. Aqui o jogo não para!
No Tour de France, um ciclista que cai no asfalto a 60 km/h, pode rasgar a pele e o músculo, cobrindo-se de sangue, mas levanta-se, monta-se na bicicleta e pedala mais 80 km para não ser desclassificado pelo controlo de tempo – a resistência humana e o sacrifício no seu expoente máximo.
O ciclismo é um desporto de alta intensidade e verdadeira tática militar. Sabias quem um atleta que pedala integrado no pelotão (grande grupo de ciclistas) consegue poupar até 40% de energia em comparação com alguém que pedala sozinho na frente da corrida?
O maior inimigo do ciclista é a resistência. E esta simples regra de aerodinâmica transforma o ciclismo num jogo de estratégia e de intensidade imprópria para cardíacos.
O Tour de France é um verdadeiro tabuleiro de xadrez, dividido por camadas:
O Tour de France vive de rivalidade de filmes, como o duelo entre o fenómeno esloveno Tadej Pogačar e o dinamarquês Jonas Vingegaard. Ver dois gigantes a atacarem-se mutuamente nas rampas de 10% do Col du Galibier, com os rostos marcados pelo esforço, enquanto fazem bluff psicológico mútuo, pode ser mais tenso do que qualquer final de campeonato de futebol.
A grande diferença é que no ciclismo não há substituições, não há táticas defensivas para segurar um empate e não há intervalos para descansar. Num momento de fraqueza, o ciclista pode perder tempo numa subida e ver o trabalho de um ano inteiro ir pelo cano abaixo numa questão de minutos.
A gestão emocional e a capacidade de resistir ao sofrimento são imprescindíveis para alcançar o sucesso no ciclismo.
A não ser que sejas um fanático de aerodinâmica e quedas de tensão, não vejas as etapas de transição de início ao fim. Liga a televisão apenas nos últimos 20 a 30 quilómetros.
É nos últimos quilómetros que dispara a velocidade e aumenta a tensão.
É nestas montanhas que a corrida se ganha ou se perde e que os ciclistas conquistam feitos e tornam-se verdadeiras lendas.
Por isso, procura no calendário as etapas que terminam com subidas icónicas, como como o Alpe d'Huez, o Mont Ventoux ou o Col du Tourmalet.
Não correm todos pelo mesmo objetivo. Neste sentido, é importante decorares as seguintes cores para compreenderes o funcionamento do jogo:
Em suma, o motivo pelo qual milhões de pessoas assistem ao Tour de France todos os anos é porque é uma metáfora da vida real. Um desporto onde é preciso trabalhar em equipa para que apenas um possa brilhar no topo do pódio.
Um verdadeiro teste à dor física e mental, onde as quedas são certas, mas a única opção é levantar, limpar o pó e nunca deixar de pedalar. O ciclismo mostra-nos que, mesmo nas subidas mais íngremes da vida, se mantivermos a consistência, foco e ritmo, acabamos por encontrar a descida até à meta.
Por isso, da próxima vez que vires na televisão um pelotão a deslizar pelo interior de França, não mudes de canal imediatamente. Repara, nem que seja durante pouco tempo, no sofrimento silencioso dos atletas, na velocidade louca e na vontade de vencer.
E inspira-te nessa vontade e vence!