PLANO DE TREINO
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Hoje em dia, fala-se muito de amor próprio. Está em todo o lado: nas redes sociais, nos podcasts e nas conversas entre amigos. No fundo, "põe-te em primeiro lugar" é, cada vez mais, um mantra a seguir à risca. E, em teoria, isto faz sentido.
Mas será que isto é assim tão simples? Estamos realmente a cuidar de nós, do nosso bem-estar e da nossa saúde mental ou apenas a alimentar o ego?
É que a linha entre amor próprio e ego nem sempre é clara e, às vezes, até pode parecer tudo a mesma coisa. Em ambos os casos, estamos a olhar para nós, a tomar decisões com base no que sentimos e a definir limites. Mas a intenção é diferente - e isso é importante.
O amor próprio é algo que traz estabilidade, confiança e equilíbrio. Mas o ego acaba por ser algo mais reativo, defensivo e que até pode servir como afastamento. Ou seja, em vez de protegeres a tua saúde mental, podes até estar a prejudicá-la.
Num mundo onde se incentiva cada vez mais a "não aceitar menos", também se torna importante perceber quando isso é um sinal de autoestima e quando é apenas uma forma de evitar desconforto, crítica ou crescimento.
Porque cuidar de nós próprios não é o mesmo que colocar-nos acima de tudo. E perceber essa diferença pode mudar a forma como treinamos, nos relacionamos e tomamos decisões no dia a dia.
O amor próprio é frequentemente reduzido a ideias relativamente simples, como cuidares de ti próprio, dizer "não" quando é preciso, impôr limites. E, realmente, isto faz parte de ter amor próprio, mas não é tudo.
Na prática, o amor próprio não é apenas sobre fazer o que sabe ou faz bem no momento. É sobre fazer o que faz sentido a longo prazo, como descansar quando o corpo pede, reconhecer falhas e escolher treinar mesmo quando não apetece, por exemplo.
Ou seja, também envolve responsabilidade.
Só que há comportamentos que parecem amor próprio à primeira vista, mas que, na realidade, são formas de evitar desconforto:
O problema aqui está na intenção por trás destas ideias e não nas ideias por si só. É que o amor próprio implica a consciência de quando estamos efetivamente a querer cuidar de nós e quando estamos apenas a tentar justificar comportamentos sem sinceridade ou espírito crítico.
No fundo, não é sobre fazer sempre o que queremos, mas sim sobre fazer aquilo que nos faz crescer, nos traz paz de espírito e nos torna melhores.
Falar de amor próprio é importante. Mas há um lado menos falado desta conversa: quando usamos o conceito para justificar aquilo que, na verdade, é evitamento.
Às vezes, é só uma forma mais aceitável, ou até socialmente validada, de fugir ao desconforto.
Quando usamos o amor próprio como escudo para evitar tudo o que nos desafia, deixamos de estar a cuidar de nós e passamos a proteger uma versão mais limitada de quem somos.
Pensa assim: a questão não é o que estás a fazer; é o porquê. Porque entre ouvir o teu corpo e ceder sempre ao desconforto, há uma diferença grande.
Antes de mais, é importante perceber que o ego não é algo necessariamente mau. Todos temos ego e faz parte da forma como nos protegemos, como construímos identidade e como reagimos ao mundo à nossa volta.
O problema surge quando o ego deixa de servir para nos proteger e passa a controlar. Ao contrário do amor próprio, que tende a ser estável e consciente, o ego é mais reativo. Precisa de validação, evita falhas e tenta manter uma imagem de quem somos ou de quem queremos parecer ser.
E é aqui que começa a confusão. Porque, na prática, o ego pode usar exatamente a mesma linguagem do amor próprio, mas usá-la como escudo contra a crítica, o desconforto e a mudança.
Quando pensamos em ego, é fácil imaginar algo mais óbvio, como arrogância, excesso de confiança e necessidade constante de validação. Mas, na realidade, o ego manifesta-se de formas muito mais subtis.
E são precisamente essas que passam despercebidas.
No dia a dia, o ego aparece em pequenas atitudes que, à primeira vista, parecem normais:
Repara que nenhuma destas coisas faz de alguém propriamente egocêntrico. Mas mostram como, muitas vezes, o ego entra em ação para proteger a forma como nos vemos ou como queremos ser vistos.
No fundo, o ego não gosta de se sentir exposto. Não gosta de falhar, de parecer menos competente ou de admitir que ainda há coisas a aprender.
E isto também se aplica ao treino, claro. Aqui, o ego pode manifestar-se de formas subtis, mas também está lá:
Quanto mais automáticas se tornam estas reações, mais fácil é confundirmos proteção com limitação. E é exatamente por isso que distinguir ego de amor próprio exige um pouco mais de atenção e, acima de tudo, honestidade contigo próprio.
Uma forma simples de começar a perceber se tomaste decisões com base no ego ou no amor próprio é fazer perguntas. O objetivo não é o auto julgamento, mas, sim, ganhar clareza.
Será que estás apenas a evitar desconforto? Estás a tomar a tua decisão por ti ou com base na forma como queres ser visto? Estás a ser honesto contigo próprio?
Estas perguntas não têm necessariamente respostas certas ou erradas. Mas ajudam a perceber a intenção real.
Outro sinal importante está no impacto a médio prazo.
É que decisões baseadas em amor próprio podem ser desconfortáveis no momento, mas tendem a trazer crescimento e estabilidade. Já as decisões baseadas no ego podem trazer alívio imediato, mas, muitas vezes, levam-te a manter os mesmos padrões.
No fundo, não se trata de escolher um lado e ficar lá para sempre. Trata-se de desenvolver consciência suficiente para perceber, em cada situação, o que está realmente a guiar a tua decisão.
Depois de tudo isto, é fácil cair numa ideia simplista: o ego é mau e o amor próprio é bom. Mas a realidade não funciona assim.
O ego faz parte de nós. É o que nos ajuda a proteger, a reagir rapidamente em certas situações e até a afirmar a nossa identidade. Sem ele, seria difícil estabelecer limites ou posicionarmo-nos no mundo.
Todos, em diferentes momentos, tomamos decisões baseadas no ego. E isso faz parte.
Portanto, o problema não é ter ego, mas sim deixar que ele lidere todas as decisões. Por isso, é mesmo importante encontrar um equilíbrio e não nos fecharmos.
Se isto é fácil? Não. Fazer esta distinção nem sempre é simples ou confortável.
Implica reconhecer padrões, admitir erros e, muitas vezes, fazer escolhas que não são as mais fáceis no imediato. Como não ceder à gym anxiety, por exemplo. Mas são também essas escolhas que constroem algo mais sólido a longo prazo.
No dia a dia, a linha que separa o amor próprio do ego é muito subtil e pode dificultar a sua distinção. Ambos podem levar a decisões semelhantes, mas o que difere realmente não é tanto a ação, mas a intenção e o impacto dessa decisão.
Uma forma simples de começar a distinguir é fazer uma pergunta: "isto está a ajudar-me a crescer ou a proteger-me do desconforto?".
No treino, por exemplo, pode ser a diferença entre evoluir ou ficar preso no mesmo ponto durante meses. Neste caso, o amor próprio permite ajustar e aprender e melhorar de forma consistente. Já o ego tende a repetir padrões confortáveis, mesmo quando já não estão a funcionar.
Fora do ginásio, o impacto é ainda mais evidente. O amor próprio ajuda a construir relações mais equilibradas, decisões mais conscientes e uma maior estabilidade emocional. Permite ouvir, ajustar e crescer sem perder identidade.
O ego, por outro lado, pode criar barreiras invisíveis, dificultar conversas, amplificar conflitos e manter padrões que já não fazem sentido e tudo em nome de uma imagem que, claramente, não corresponde 100% à realidade.
Lembra-te de que crescer implica sempre algum nível de desconforto inevitável.
Se tudo o que fazemos nos mantém confortáveis, validados e seguros o tempo todo, é provável que o ego esteja a liderar mais do que o amor próprio.
E não te preocupes, porque ninguém acerta sempre. Todos somos humanos e é normal que, por vezes, as nossas ações se baseiem no ego e tomemos decisões que consideramos melhores para nós, mas que acabam por, de alguma forma, ser prejudiciais. Afinal, todos erramos.