PLANO DE TREINO
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Queremos começar com uma pequena “provocação”. Estamos todos, consciente ou inconscientemente, na Protein Era, verdade? De repente, todas as conversas se cruzam com a proteína. Tudo tem, ou tem que ter, proteína, todos somos constantemente pressionados, a comer proteína. No supermercado, em casa, no ginásio Fitness UP, na rua, na publicidade, na comunicação social, nas redes sociais. Do nada, estamos a ser engolidos pela proteína. Parece que nada é suficiente para "bater as micros e macros do dia em proteína".
Proteína, Proteína, Proteína. Passámos todos a ter um corpo composto por 70% de proteína em vez de água? O hype que existe à volta da proteína leva-nos a uma obsessão absurda por este macronutriente ao ponto de ficarmos “doidos por ela.” Isto cria ruído de fundo na nossa cabeça. Ir às compras transformou-se numa leitura obsessiva de rótulos à procura do “rico em proteína”, e cozinhar passou a parecer um trabalho de laboratório onde cada grama conta para o final do dia. O problema desta vigilância constante, deste foco milimétrico no que é funcional e estrutural, acaba por nos desgastar mentalmente. E é precisamente neste desgaste, desta necessidade irrealista de fazer tudo sem falhas, que surge o contrapeso inevitável: a espera pela "refeição do lixo". Como passamos a semana inteira num plano quase cirúrgico, criamos uma espécie de realidade que não corresponde ao momento em que estamos à mesa. Mas será que faz sentido este extremismo entre uma “obsessão” por macros e o abismo do “lixo ou asneira”?
Chamar "lixo" ou "asneira" àquilo que comes diz muito mais sobre o teu estado mental do que sobre o valor nutricional do prato que tens à frente. A forma como falamos e nos escutamos, acaba por influenciar o nosso comportamento com a comida. São “as nossas regras.” Ao usares palavras tão agressivas para descrever um momento de aproveitar o que estás a comer, acaba por azedar a relação que tens com a comida. Estás a criar uma rotina de “crime e castigo”. Passas a olhar para a comida não como uma fonte de satisfação natural, mas como um ato de rebeldia que, mais tarde ou mais cedo, vai estragar a tua relação com ela, sentes culpa, arrependimento e remorsos. Isto não está no plano nutricional. Não há macros, nem micros para atingir aqui. Só estás a perder.
Quando a rotina alimentar é empurrada para um extremo de controlo onde só entra o que é funcional, chega um dia em que tu achas que “mereces” a refeição que te apetecer. Criou-se a ideia de que, após dias de comportamento exemplar, cumprires todas as macros, e recusares tudo o que envolva açúcar e gorduras, tens o direito de comer sem restrições.
Esta necessidade de compensação tem a premissa do "eu mereço". O raciocínio parece lógico e até pode fazer sentido. Não é porque fizeste um bom treino em que te esforçaste e foste consistente na alimentação que podes olhar para opções mais calóricas, como recompensa do teu esforço. No entanto, há aqui um problema quando vês os alimentos mais calóricos como exceção e não como regra, estás implicitamente a assumir que a tua alimentação saudável e os treinos no Fitness UP são um castigo, uma obrigação que tens que fazer para poderes comer o que gostas.
A, ainda, mentalidade do "portar bem" para teres o direito a comer o que queres, cria uma perceção sobre o teu corpo. Um estilo de vida equilibrado não se constrói com trocas e compensações. Quando comes porque "mereces", ficas preso a uma ideia irrealista. O trabalho não correu bem, não conseguiste treinar com a intensidade que esperavas, ou falhaste, vais sentir que estás em dívida. Estás a castigar-te. Para! O teu corpo trabalha em sinergia com o teu metabolismo e sistema nervoso. A comida não pode ser usada como ferramenta de manipulação emocional.
O verdadeiro perigo de uma refeição fora do plano não está nas calorias adicionais, na quantidade de hidratos de carbono ou na gordura saturada que ingeres. Se tens uma rotina de treino consistente no Fitness UP, não desesperes. Não precisas de ir correr para corrigir o que comeste “a mais”. O corpo sabe o que faz e vai processar o excedente calórico. O estrago acontece a nível psicológico, na fração de segundo em que pousas o talher e o remorso se senta à mesa contigo. A culpa pós-refeição é o travão na tua evolução, porque condiciona os teus comportamentos seguintes de forma irracional.
E como é que tudo isto se vê no dia-a-dia e como pode destruir a tua consistência:
A culpa tira-te a clareza. Alguém com uma mentalidade sólida percebe que uma refeição isolada tem um impacto residual num plano anual. Desfruta do momento, saboreia a comida e, na refeição seguinte, regressa à normalidade sem dramas, sem necessidade de castigos e sem cortes radicais. O corpo humano responde à regra, não às exceções, lembras-te?
Quando a pressão para comer macronutrientes, como a proteína, e a imposição constante de restrições a alimentos “proibidos”, leva-nos a questionar as nossas escolhas à mesa. Desta forma é fácil passar da restrição à compulsão. É um mecanismo psicológico e fisiológico que funciona com uma precisão matemática e do qual é muito difícil sair se não mudares a abordagem.
Tudo começa com a imposição de limites irrealistas. Decides cortar os doces, o pão, os hidratos à noite e tudo o que te dê uma satisfação imediata. Inicialmente, a força de vontade aguenta o plano. Só mais uma rep, mas a tua mente contraria esta ideia de restrição. O teu cérebro começa a focar-se obsessivamente naquilo que lhe recusaste. Esta pressão acumula-se sem dares por isso. Quando menos esperares, a resistência falha. Tal como no treino, repetes o exercício até à falha.
Como estás preso a esta mentalidade do "tudo ou nada", a tua cabeça ativa um modo de comer depressa, engoles sem mastigar a maior quantidade de comida que consegues, numa impulsividade que nem tu consegues explicar. Depois tentas arranjar desculpas para o que acabou de acontecer. É neste ponto que a refeição do “lixo” se transforma num episódio de compulsão. É esta pressa de preencher o vazio que criaste pela restrição. No dia seguinte, o arrependimento é esmagador. Sentes-te fraco, sem disciplina, e a tua decisão imediata é quase “deixar de comer” para corrigir os erros que fizeste. E assim, sem perceberes, voltas exatamente ao ponto de partida, da pressão ao descontrolo. Para quebrares este padrão de vez é deixar de diabolizar a comida. Quando aceitas que nenhum alimento é estritamente proibido e que a flexibilidade faz parte do plano, o impulso desmedido de querer comer tudo de uma vez deixa de existir.
Passamos demasiado tempo a discutir e a avaliar alimentos, a verdade crua é a que não existem “fórmulas” ou regras exatas. E continuamos a julgar tudo o que comemos, com rótulos. O que é para uns, não é para outros. É tão simples quanto isto. Quando comes, o teu corpo só fica com o que precisa para funcionar, como a energia e vitaminas. Ele não quer saber de rótulos.
A ideia de que uma pizza ou um gelado vão destruir semanas de esforço é um erro crasso. Para acumulares um quilo de gordura, precisas de um excedente calórico sustentado ao longo do tempo. O que prejudica a composição corporal não é a exceção, é a inconsistência sem perceberes. A verdade nua e crua é esta. “Não sais da mesa enquanto não comeres tudo o que tens no prato.” Sim, a mãe tem sempre razão, mas tu vais comer tudo porque no prato não há rótulos.”
Um dos erros mais comuns é pensar que o “ser saudável” depende apenas da imagem que o teu corpo tem, de andares sempre a contar calorias sem falhar um único grama, e de achares que o scoop de proteína e a balança são os “essenciais” no saco de treino. Se a ideia e/ou imagem que tens de um corpo te faz não querer “sair da rotina”, isto já não é saudável. Esquece as regras e os padrões. Tu não és um XS/S ou um M/L.
O quase visceral que isto possa parecer, há comida que nos traz disciplina e foco e “outra comida” que damos como desculpa. O mais estranho é repetirmos vezes sem conta, expressões que já ninguém questiona. O “lixo”, a “asneira”, e comemos entre os pratos do controlo e vigilância e os do equilíbrio. O problema aqui não é a comida, é a relação que fomos criando com ela. A comida deixou de ser apenas comida. Ela passou a ser rótulos, calorias, restrição, treino depois de comer, macros do dia, suplementos, perder o controlo. Antes, nós só comíamos uma refeição, hoje a maioria das vezes estragamos o que comemos. É aqui que a refeição “do lixo” ganha um lugar à mesa.
Claro que ter consciência alimentar não é um problema. Saber ler rótulos, perceber minimamente aquilo que comes ou procuras algum equilíbrio nutricional, é importante. O problema começa quando a alimentação deixa de coexistir naturalmente com a vida e passa a funcionar como uma prova de controlo. Isto é o que a Protein Era tenta impor-te a cada segundo. Põe de parte, estes “palavrões” sobre a forma como te alimentas.
Frustração, desgaste, cansaço, muitas vezes é o que sobra numa refeição. Hoje entrámos numa corrida desenfreada, para caber no rótulo que nos querem colocar. Não estamos em prateleiras, mas somos vistos como embalagens, algo que só cria atrito com outros. A mesa deixou de ser um espaço onde se passavam horas infinitas sentados em conversas cruzadas entre garfadas. Este espaço passou a ser vazio e não enche a barriga. A obsessão que se vive hoje à volta de um prato, leva à pressão constante de corresponder a um padrão e um corpo que todos querem, mas ninguém sabe qual é. A relação com a comida tornou-se um controlo milimétrico, preciso. O problema é que esta ideia se enraizou em nós e ao nosso redor. A autorização do “podes comer” e a autoridade de um “não é nutricionalmente interessante”, acaba sempre num “rico em proteína”. Estamos a criar uma obsessão por “comida proibida”. Desde quando? Até o treino que estava associado a saúde, capacidade física, energia, passou a uma negociação constante “do que fazer para compensar o que comi”. Comer deixou de ser natural e passou a precisar de avaliação, compensação e justificação.
O pânico que sentes quando estás fora do teu plano, e a necessidade forçada, muitas vezes imposta pelos outros, de “apagar” uma refeição com um treino ou voltar à restrição alimentar, transforma-se numa relação muito pouco saudável com a comida. É importante procurares um equilíbrio e consistência alimentar, sem teres a necessidade de justificar o que comes e sentir vergonha por isso. Escuta, não comas às escondidas, tu tens o garfo na mão.