PLANO DE TREINO
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Há algum tempo, a internet toda parece ter decidido que a água também podia ser verde. De um dia para o outro começaram a surgir garrafas com um líquido esmeralda, gotas adicionadas à água, pós, cápsulas e vídeos de pessoas a beber aquilo logo pela manhã, como se tivessem descoberto o segredo de sucesso mais bem guardado da alimentação saudável. E foi assim que a clorofila ganhou o estatuto de pequena estrela do mundo do wellness.
Há quem diga que ela ajuda a desintoxicar o organismo, a controlar o peso, a melhorar a pele, a facilitar a digestão e até a dar aquele glow que parece obrigatório nas redes sociais… mas será que uma bebida verde consegue mesmo fazer tudo isto?
Antes de decidirmos se a clorofila é uma maravilha escondida da natureza ou apenas mais uma tendência bonita no Instagram, vale a pena voltar ao princípio. Porque a clorofila é, antes de tudo, bem mais interessante do que uma garrafa verde que se tornou viral.
Comecemos pelo básico: o que é a clorofila?
É o pigmento que dá a muitas plantas a sua conhecida cor verde, mas a sua função está longe de ser só estética. É uma das peças fundamentais da fotossíntese, o processo em que as plantas utilizam a luz para produzir a energia de que precisam. Ou seja, aquela folha verde que vemos numa salada está a carregar uma pequena história de engenharia biológica.
A clorofila ajuda a captar a energia da luz e participa nas reações que permitem à planta transformar água e dióxido de carbono em matéria orgânica, libertando oxigénio no processo. É graças a mecanismos como este que as plantas conseguem crescer - e que existe oxigénio suficiente à nossa volta para podermos respirar.
Nada mau para um pigmento que, à primeira vista, parece estar ali apenas para deixar as folhas bonitas.
Aqui começa a parte que pode ser uma pequena desilusão para quem estava prestes a encomendar uma garrafa de água verde: provavelmente já consomes clorofila. Ela está naturalmente presente em muitos vegetais verdes, como:
E esta é uma distinção importante. Quando comemos brócolos, por exemplo, não estamos simplesmente a “consumir clorofila”: estamos a comer um alimento inteiro, que também fornece fibra, vitaminas, minerais e vários outros compostos bioativos; e é por isso que uma alimentação rica em vegetais continua a ser muito mais interessante do que procurar um único componente isolado.
Aliás, há uma pequena armadilha nessa obsessão pelo “verde”: uma alimentação saudável não precisa de ser monocromática. Cenoura, tomate, pimento, frutos vermelhos, abóbora, beringela, couve… quanto mais variada for a paleta do prato, maior a variedade de nutrientes e compostos que conseguimos incluir. Por isso, sim, come verde. Mas não te esqueças das outras cores.
Chegamos finalmente à parte trendy. A chamada “água de clorofila” costuma ser feita adicionando à água um produto comercializado como clorofila líquida. Só que, em muitos destes produtos, aquilo que encontramos não é simplesmente a clorofila tal como existe numa folha.
É frequente ser utilizada clorofilina, um derivado hidrossolúvel da clorofila que é mais adequado para ser incorporado em produtos líquidos. A composição pode variar bastante entre produtos, por isso é importante olhar para o rótulo em vez de assumir que todas as garrafas verdes são iguais.
E foi assim que algo que existe naturalmente nos vegetais passou de uma folha de espinafre para uma garrafa com aspeto futurista. Mas aqui convém fazer uma pausa: o facto de uma substância existir de forma natural nos alimentos e de existirem estudos sobre os seus compostos não significa automaticamente que tomar um suplemento concentrado produza os mesmos efeitos.
É exatamente aqui que a ciência e o marketing começam, por vezes, a seguir caminhos diferentes.
Esta deve ser uma das perguntas mais importantes - e também aquela em que precisamos de baixar um bocadinho o entusiasmo. Existem estudos sobre a clorofila e seus derivados e há mecanismos interessantes a serem investigados. A investigação tem explorado, entre outras coisas, atividade antioxidante, interações com determinados compostos no organismo e possíveis efeitos relacionados com processos de stress oxidativo e metabolismo.
Também existem estudos em humanos específicos sobre a clorofilina, incluindo investigação relacionada com a exposição às aflatoxinas. Num ensaio clínico realizado em adultos com elevada exposição alimentar a estas substâncias, a suplementação com clorofilina reduziu determinados biomarcadores de exposição. É um resultado interessante - mas não significa que a clorofilina previna doenças em qualquer pessoa.
A ciência raramente funciona em frases como “bebe isto e vais conseguir aquilo”. São necessários vários estudos, em diferentes populações e condições, para perceber se um efeito é realmente consistente. Uma única investigação pode ser interessante, mas dificilmente conta a história toda. Por isso, fica atent@: quando alguém promete uma lista interminável de benefícios graças a umas gotas verdes, vale a pena levantar uma sobrancelha.
É aqui que a clorofila costuma ganhar poderes quase sobrenaturais nas redes sociais.
A palavra detox é irresistível, parece que existe uma substância que entra no corpo, encontra todas as coisas que não interessam e carrega no botão “eliminar”. Só que o nosso organismo já tem sistemas especializados para processar e eliminar substâncias que precisa, nomeadamente através do fígado e dos rins.
Isso não significa que a investigação sobre a clorofila e determinados compostos seja inútil, significa apenas que não devemos transformar resultados específicos numa promessa genérica de “limpeza do organismo”. Beber água verde não é fazer uma limpeza ao corpo.
Até aqui, a resposta é muito menos emocionante do que gostaríamos: não há base suficiente para dizer que beber clorofila, por si só, provoca perda de peso. Uma alimentação rica em vegetais pode fazer parte de um padrão alimentar associado a uma gestão saudável do peso - mas isso acontece pelo conjunto da alimentação, não porque a clorofila tenha poderes especiais para “queimar gordura”.
Outra vez: há uma diferença entre uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, e atribuir a uma bebida específica um efeito cosmético. Comer bem contribui para fornecer ao organismo nutrientes importantes para a saúde em geral, mas isso não transforma a clorofila líquida num tratamento de beleza.
Se o objetivo é cuidar da pele, provavelmente vale mais a pena começar pelo básico: alimentação variada, sono, proteção solar e cuidados adequados.
Se fazes exercício, temos uma boa notícia: não precisas de uma garrafa verde para tornar a tua alimentação mais interessante. Os vegetais verdes podem perfeitamente fazer parte de uma alimentação adequada para quem treina, contribuindo com fibra, vitaminas, minerais e outros nutrientes, e existem muitas formas de os incluir:
> Omelete: acrescenta espinafres ou ervas aromáticas.
> Almoço ou jantar: junta brócolos, couves ou uma salada colorida.
> Pós-treino: combina uma fonte de proteína com legumes e uma fonte de hidratos de carbono (que, por sinal, não precisam de ser evitados - falamos disto aqui).
> Snack ou refeição rápida: acrescenta folhas verdes a uma sandes ou wrap.
Não é preciso transformar cada refeição num festival de folhas, o objetivo é simplesmente tornar os vegetais uma presença habitual no prato.
Se queres aproveitar o lado bom desta tendência, podemos fazer uma coisa ainda mais simples: comer os vegetais em vez de procurar um suplemento para os substituir. Experimenta:
E ainda há outra vantagem: quando usamos ervas, folhas e legumes para dar sabor, podemos tornar as refeições mais interessantes sem depender de molhos ou temperos mais pesados. Não precisamos de inventar muito, às vezes a melhor tendência alimentar é simplesmente voltar ao prato.
Aqui entra uma parte menos divertida, mas importante: “natural” não é sinónimo de “seguro para toda a gente”. Os suplementos podem ter concentrações e ingredientes diferentes e também podem interagir com medicamentos ou não ser adequados para determinadas pessoas ou situações. Além disso, o facto de um produto estar disponível para compra não significa que tenha sido estudado da mesma forma que um medicamento.
Então, se estás a pensar experimentar clorofila líquida ou outro suplemento, começa pelo rótulo. Vê exatamente o que contém, segue as indicações do fabricante e, se tens alguma condição de saúde, estás grávida, a amamentar ou tomar medicação, fala primeiro com um profissional de saúde - e não assumas que mais é melhor.
Se chegaste até aqui à espera de um “sim” ou “não” definitivo, temos uma resposta menos dramática: depende do que estás à procura.
Se gostas de experimentar uma bebida com clorofilina e não existem contraindicações para ti, isso é uma escolha pessoal, mas não precisas dela para ter uma alimentação saudável e não há razões para a tratar como uma poção milagrosa. Se o objetivo é consumir mais clorofila, há uma solução bastante menos trendy e muito mais simples: come mais vegetais verdes. E se o objetivo é cuidar da saúde, ainda melhor: aposta na variedade.
Porque a clorofila é interessante, sim, muito mais interessante do que parece; mas o verdadeiro “superpoder” está no conjunto.
Talvez a clorofila tenha ganho tanta popularidade porque representa tudo aquilo que associamos a uma alimentação saudável: natureza, plantas, frescura, cor… e não há nada de errado nisso. O problema começa quando transformamos uma característica interessante de um alimento numa promessa capaz de resolver tudo.
A clorofila é essencial para as plantas, está naturalmente presente em muitos vegetais e continua a ser objeto de investigação científica. Alguns dos seus derivados mostram resultados interessantes em determinadas áreas, mas ainda há muito para perceber - e é isso que torna a ciência tão fascinante.
Por isso, da próxima vez que encontrares uma garrafa de água verde nas redes sociais, podes olhar para ela com curiosidade - mas não precisas de acreditar que acabaste de encontrar um pote de outro no fim do arco-íris.
O recado é simples: come mais verde, come mais cores, mexe-te, dorme bem, cuida de ti.
E lembra-te: não são as grandes tendências que fazem a diferença, mas os pequenos hábitos que conseguimos manter. E, convenhamos, uma boa salada é bem mais saborosa do que uma poção mágica, não achas?