PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Os ginásios assistem, ano após ano, ao mesmo fenómeno: chega o início do ano e milhares de pessoas decidem que "desta vez é que vai ser". E inicia-se uma nova tentativa de transformação.
Compramos roupa nova, ténis novos, shaker novo, seguimos meia dúzia de atletas nas redes sociais e fazemos uma promessa a nós próprios: "Desta vez é que vai ser."
Os primeiros dias são quase sempre iguais:
Mas depois chega a realidade.
O entusiasmo inicial começa a diminuir, a rotina volta a acelerar, surgem compromissos inesperados, aparece um treino falhado... depois outro... e, quase sem darmos conta, passam-se duas ou três semanas sem voltarmos ao ginásio.
Se isto te soa familiar, fica descansado: não és caso único.
Aliás, é precisamente durante os primeiros meses que acontece a maior parte das desistências.
Mas será que o problema está realmente na falta de motivação? Ou será que começámos o processo com expectativas que nenhum corpo conseguiria cumprir?
Neste artigo vamos perceber porque é que tantas pessoas abandonam o ginásio tão cedo... e, mais importante ainda, o que distingue quem desiste de quem consegue transformar o exercício físico num hábito para a vida.
Quando alguém entra num ginásio pela primeira vez, raramente o faz sem um objetivo.
Até aqui, tudo certo.
O problema começa quando esses objetivos vêm acompanhados de um calendário demasiado otimista.
Vivemos numa época em que estamos constantemente expostos a promessas de resultados rápidos.
Depois olhamos para nós próprios, passamos quatro semanas a treinar... e a balança praticamente não mexe, o espelho parece igual, a roupa veste da mesma forma.
E surge um pensamento perigoso: "Se calhar isto não resulta comigo." Mas na maioria dos casos, o problema não é o treino, nem o corpo… É simplesmente a expectativa que criámos antes de começar.
Estamos habituados a viver num mundo do imediato e o impacto que tem em nós é real:
Sem nos apercebermos, começamos também a esperar que o corpo funcione com essa mesma rapidez.
Mas o organismo humano trabalha por adaptação… Ganhar massa muscular demora tempo, também como a perda de gordura e a melhora da condição física.
E isso não significa que nada esteja a acontecer.
Significa apenas que o teu corpo está a fazer exatamente aquilo que a fisiologia sempre fez: adaptar-se gradualmente. Aliás, muitas das primeiras mudanças nem sequer são visíveis ao espelho.
Só mais tarde essas adaptações começam a refletir-se na aparência física.
"Só precisas de motivação para começar."
A motivação é excelente para dar o primeiro passo. É ela que nos faz entrar pela primeira vez no ginásio, comprar roupa de treino nova e imaginar tudo aquilo que queremos conquistar.
O problema é que a motivação é uma emoção. E, como qualquer emoção, varia. Há dias em que acordamos cheios de energia e vontade de treinar. Noutros, só a ideia de sair do sofá parece exigir um esforço olímpico.
E isso é perfeitamente normal. O erro acontece quando acreditamos que só devemos treinar nos dias em que "nos apetece". Porque, se assim fosse, dificilmente alguém treinaria durante anos.
Pergunta a qualquer atleta experiente se lhe apetece treinar todos os dias…
A diferença é que deixaram de depender da motivação para aparecer. Criou um hábito. E existe uma enorme diferença entre estas duas coisas. A motivação faz-nos começar e o hábito faz-nos continuar.
Entrar no ginásio costuma vir acompanhado de uma enorme vontade de mudar. E isso, por si só, é positivo. O problema é que muitas pessoas tentam mudar absolutamente tudo... ao mesmo tempo.
De um dia para o outro decidem:
Parece um excelente plano. Durante... três ou quatro dias. Depois a vida acontece. Surge um jantar de família, uma semana mais complicada no trabalho ou um dia em que simplesmente não apetece cozinhar.
E, porque o plano era demasiado rígido, basta falhar uma das regras para aparecer aquele pensamento clássico: "Já estraguei tudo."
Mas não estragaste. A verdade é que a consistência nunca nasce da perfeição. Nasce da adaptação.
É muito mais eficaz começar com três treinos por semana durante vários meses do que tentar treinar todos os dias e desistir ao fim de duas semanas.
No fitness, quase sempre vence quem consegue fazer o suficiente... durante muito tempo. Não quem faz tudo... durante pouco tempo.
Existe uma fase “perigosa” para quem começa a treinar: aquela em que sentimos que nada mudou…
O espelho parece igual, a balança mal mexe e a roupa continua a servir da mesma forma. E, no entanto, o corpo já está completamente diferente. O que acontece é que muitas das primeiras adaptações não são visíveis.
Talvez já consigas subir escadas sem ficar ofegante, já leves as compras para casa com muito menos esforço. Talvez aquela máquina que no primeiro dia parecia impossível agora já faça parte da tua rotina. Já começas a ter mais capacidade de fazer mais repetições, subir à carga ou simplesmente terminar o treino com menos fadiga.
Tudo isto são resultados.
Só que não aparecem numa fotografia. E talvez seja esse um dos maiores erros dos principiantes: acreditar que a única forma de medir progresso é através do espelho.
Na realidade, existem dezenas de sinais de evolução muito antes da transformação física ser evidente.
E, curiosamente, quando damos valor a estas pequenas vitórias, torna-se muito mais fácil manter a consistência necessária para que, mais tarde, também os resultados estéticos apareçam.
Surprise, surprise… o verdadeiro objetivo do primeiro mês de treino... não é transformar o corpo. É transformar a rotina.
Se ao fim de quatro semanas:
Então estás muito mais perto do sucesso do que imaginas.
Porque construir um hábito vale infinitamente mais do que perder dois ou três quilos rapidamente. Os resultados físicos acabam sempre por depender daquilo que fazemos repetidamente.
E ninguém consegue repetir durante anos algo que nunca chegou a integrar na sua rotina. Por isso, talvez devêssemos celebrar menos aquilo que acontece na balança e celebrar mais o facto de termos aparecido.
Porque, no final do dia, o treino que transforma o corpo é quase sempre aquele que acontece. Não aquele que ficou planeado.
Vamos falar-te sobre o erro crasso que se aplica à maioria daqueles que inicia a sua jornada fitness e que é a receita para o falhanço… Atenção que esta história tende a repetir-se e começa… no telemóvel.
Basta abrir as redes sociais para sermos inundados por físicos impressionantes, vídeos de treinos intensos e transformações que parecem acontecer da noite para o dia. E sem darmos por isso, começamos a comparar a nossa realidade com aquilo que vemos no ecrã.
Mas parece que nos esquecemos que estamos a comparar o nosso primeiro mês... com (possivelmente) vários anos de trabalho de outra pessoa.
Não vemos as centenas de treinos que ficaram para trás, os dias em que também lhes faltou vontade, as fases em que estagnaram, se lesionaram ou pensaram em desistir.
Vemos apenas o resultado final. E quando olhamos para o nosso reflexo ao espelho e sentimos que ainda estamos longe desse objetivo, surge a frustração.
Mas a verdade é que ninguém começa no fim da história. Toda a gente começa exatamente no mesmo sítio: no primeiro treino.
Vivemos numa cultura que procura resultados rápidos. Mas o corpo humano continua a funcionar exatamente como sempre funcionou. Precisa de tempo.
É curioso pensar que ninguém aprende uma língua nova em três semanas. Ninguém conclui um curso universitário num mês. Ninguém cria uma empresa de sucesso em 30 dias.
Então porque esperamos que o nosso corpo mude completamente nesse espaço de tempo?
A saúde não é um projeto de verão. Nem um desafio de 21 dias ou um objetivo para cumprir antes das férias.
É um investimento para décadas. E talvez seja precisamente essa mudança de perspetiva que faz toda a diferença.
Em vez de perguntar: "Quanto tempo falta para atingir o meu objetivo?"
Talvez a pergunta mais útil seja: "Que hábitos consigo manter durante os próximos anos?"
Porque são esses hábitos que acabam por construir os resultados que procuramos.
À primeira vista, poderíamos pensar que quem continua tem mais força de vontade, disciplina ou mais tempo. Mas, na maioria das vezes, nem é esse o caso.
E sabes que mais?
Esses treinos também contam. Aliás, contam muito. Porque a consistência não se constrói apenas nos dias bons. Constrói-se, sobretudo, nos dias em que não apetece. É precisamente nesses momentos que um treino deixa de ser uma decisão emocional... e passa a fazer parte da rotina.
Tal como lavar os dentes, ir trabalhar ou dormir. Chega uma altura em que simplesmente faz parte da tua vida. E é aí que tudo muda.
P.S: Se quiseres mais dados sobre que te ajudam a ser consistente lê mais sobre a magia dos processos químicos internos.