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Estamos em 2026, mas há uma ideia que continua a sobreviver ao tempo: a de que a obesidade é apenas uma questão de escolha e de força de vontade.
Comer menos, mexer mais são a chave para resolver esse problema. É simples, certo? Errado! Se fosse assim tão simples, a obesidade não seria uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma das maiores crises de saúde pública dos últimos tempos.
E não: não estamos a falar apenas de peso. Estamos a falar de biologia, ambiente, emoções, sono, stress… e de um sistema que muitas vezes falha para quem mais precisa dele.
No dia 23 de maio, assinala-se o Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade e, por isso, escrevo-te este artigo. Não é para apontar dedos, mas sim para levantar o véu sobre uma questão que para muitos continua a ser quase tabu.
Vamos começar pelo básico: a obesidade é uma doença crónica complexa.
A Organização Mundial da Saúde explica que a obesidade resulta de um excesso de gordura corporal, que aumenta o risco de várias doenças e problemas de saúde associados. Mas as causas vão muito além de "calorias a mais".
O corpo humano não funciona como uma calculadora. Funciona mais como um sistema inteligente... e teimoso!
Hoje, partilho contigo alguns dos fatores que influenciam diretamente a obesidade:
Um relatório da Direção-Geral da Saúde mostra que a obesidade em Portugal tem vindo a aumentar, afetando uma parte significativa da população adulta. E não, isso não se explica só com "falta de disciplina".
Se ainda pensas que a obesidade é uma escolha, vale a pena parares por uns minutos e leres este artigo até ao fim.
Um estudo publicado no The Lancet reforça que a obesidade envolve alterações fisiológicas que tornam a perda de peso e a sua manutenção extremamente difíceis.
Traduzindo isto para uma linguagem mais simplificada: o corpo adapta-se para resistir à perda de peso.
O que acontece quando alguém tenta emagrecer:
Não é sabotagem mental. É sobrevivência biológica. E acredita: é muito mais difícil contrariá-la do que parece.
Agora vamos ao lado menos falado: a obesidade não pesa só no corpo. Pesa, e muito, na saúde mental.
Um estudo da Harvard Medical School, existe uma ligação forte entre obesidade e:
O facto de existirem cada vez mais padrões de beleza e cada vez mais pressão (muito provocada pelas redes sociais) para corresponder a esses mesmos padrões fazem com que as pessoas que sofrem desta doença se sintam renegadas pela sociedade, que se isolem e que desenvolvam graves problemas a nível da saúde mental.
E aqui entra um ciclo complicado: Mais peso gera mais stress, o stress gera um aumento dos comportamentos alimentares emocionais e, consequente, mais peso.
Sim, isto é um ciclo muito difícil de quebrar, e não se trata apenas de falta de controlo.
Vamos ser honestos: a forma (discriminatória) como a sociedade olha para a obesidade não ajuda.
Tudo isso contribui para um problema maior: o estigma do peso. E isso tem consequências reais.
O estigma associado à obesidade pode:
Sabes qual é a ironia? É que tentar combater a obesidade com vergonha só piora a obesidade, e leva a graves distúrbios alimentares.
Este tópico pode ser um verdadeiro "mindblowing": há pessoas com obesidade metabolicamente saudáveis. E pessoas com peso "normal" com indicadores de saúde preocupantes.
O conceito de saúde está a evoluir, e ainda bem. O cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal) já não é levado "à risca" como era antes. Ou seja: já não é "A Regra". Hoje são tidos em conta outros fatores para avaliar se a pessoa é ou não saudável dentro do seu peso.
E esses fatores são:
E esses fatores podem ser mais relevantes do que o peso isolado. Por outras palavras: o número na balança não conta a história toda.
Mas não vamos confundir as coisas: não é por o número da balança ou o IMC não serem os únicos elementos que avaliam a tua saúde que a obesidade deve ser normalizada ou até romantizada.
A obesidade é uma doença e deve ser tratada com o acompanhamento certo.
Este ponto pode ser desconfortável, mas é importante. Vivemos numa era em que o ambiente é altamente aliciante para o aumento de peso.
Isto porque:
Os fatores ambientais são determinantes no aumento da obesidade nas últimas décadas.
Quantas vezes já deste por ti a encomendar comida para casa, ou até a ir a um restaurante porque não te apetecia cozinhar? Ou porque chegaste tarde a casa? Isto acontece.
Assim como acontece quereres ir sair com amigos e acabares sempre a petiscar aqui e ali, vezes sem conta, coisas menos saudáveis e altamente processadas.
Em suma: isto não é só sobre escolhas individuais, é sobre o contexto em que essas escolhas acontecem. E sobre a frequência com que acontecem. A vida não tem de ser sobre restrições, mas tem de ser sobre um equilíbrio saudável... que te permita ser saudável.
Este é outro ponto que merece atenção. A cultura da dieta promete soluções rápidas para a obesidade (e para o excesso de peso de forma geral).
Mas a ciência diz outra coisa, completamente oposta. E é por isso que é muito importante que saias do Instagram e procures ajuda caso tenhas realmente um distúrbio alimentar.
Segundo estudos do National Institutes of Health:
Traduzindo: Não é falta de esforço. É um sistema que não funciona como promete.
Se não é só comer menos e mexer mais que vai solucionar o excesso de peso… então, o que é?
A resposta não é simples, mas é mais humana do que possas pensar.
Para perder peso, é preciso escolher a abordagem certa: e ninguém melhor para te indicar do que um médico especialista (nutricionista e/ou endocrinologista)
Abordagens eficazes para combater a obesidade incluem:
E muita atenção a este ponto em específico: cada pessoa é diferente, e a obesidade também. Por isso, é fundamental que a abordagem seja avaliada, individualizada, integrada e adaptada a cada pessoa.
É estritamente proíbido seguir o plano d@ outr@: pode não resultar e criar ainda mais frustração... e mais peso indesejado.
Quando o tema é a obesidade, talvez esteja na altura de mudar a pergunta.
Em vez de: "Porque é que esta pessoa não emagrece?", está na hora de perguntar: "O que é que esta pessoa está a enfrentar?"
Essa mudança parece pequena. Mas muda tudo. A pessoa não escolheu ter uma doença e o processo de a tratar pode ser muito mais duro, difícil e longo do que parece.
Se chegaste até aqui, é importante que leves isto contigo (e que possas passar isto aos outros também):
E talvez o mais importante: Empatia não engorda. Mas pode mudar tudo.
Falar de obesidade não devia ser desconfortável: mas (ainda) é. Porque nos obriga a questionar ideias antigas, julgamentos rápidos e soluções simplistas.
Este artigo não é sobre normalizar problemas. É sobre compreendê-los melhor. Porque só assim conseguimos realmente fazer alguma coisa.
E talvez seja esse o primeiro passo desta batalha!