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Durante muito tempo, a recomendação para pessoas com doenças neurológicas era simples: descansar e evitar esforço. A ideia de que o exercício poderia agravar sintomas ou acelerar a progressão da doença levou muitos a associarem movimento a risco.
Hoje, a perspetiva é diferente. A verdade é que parar não é sempre o melhor caminho. Pelo contrário, o exercício, quando adaptado, pode ter um impacto positivo.
Há cada vez mais estudos que mostram que o exercício físico pode ter um papel importante não só na saúde em geral, mas também na forma como o cérebro e o sistema nervoso funcionam, mesmo em contextos de doença.
No caso da esclerose múltipla, em destaque no Dia Mundial da Esclerose Múltipla, que se assinala a 30 de maio, esta mudança é particularmente relevante.
Sintomas como fadiga, fraqueza muscular, dificuldades de coordenação ou mobilidade fazem com que o movimento pareça, à partida, um desafio. Ainda assim, a evidência científica tem vindo a demonstrar que a atividade física pode contribuir para melhorar a qualidade de vida e a funcionalidade.
Isto não significa que existam soluções simples ou universais. Mas significa que o movimento, que muitas vezes é visto como um risco, pode, na realidade, ser um aliado importante.
Para perceber o impacto do exercício, é importante começar pelo básico. De forma resumida, as doenças neurológicas são condições que afetam o sistema nervoso. Ou seja, o cérebro, a medula espinal e os nervos que ligam tudo isto ao resto do corpo.
É este sistema que controla praticamente tudo: movimento, equilíbrio, memória, coordenação, sensações e até funções automáticas como a respiração.
Quando há uma alteração neste sistema, o impacto pode ser bastante amplo.
No caso da Esclerose Múltipla, por exemplo, o sistema imunitário ataca a mielina (uma camada que protege os nervos), interferindo na comunicação entre o cérebro e o corpo. Isso pode traduzir-se em sintomas como fadiga, fraqueza muscular, dificuldades de coordenação ou alterações na mobilidade.
Outras doenças neurológicas incluem a Doença de Parkinson, que afeta o controlo dos movimentos, e a Doença de Alzheimer, mais associada à memória e às funções cognitivas.
Apesar das diferenças, há um ponto em comum: todas envolvem alterações no funcionamento do sistema nervoso e, muitas vezes, têm impacto direto na forma como o corpo se move e responde ao dia a dia.
É precisamente por isso que, durante muito tempo, o exercício foi visto com cautela.
Quando pensamos em exercício físico, é comum associá-lo apenas ao corpo. Conceitos como músculos, resistência e força surgem de imediato na nossa mente. Mas, na verdade, o impacto vai muito além disso.
O exercício também envolve o cérebro. E essa ligação é mais relevante do que parece, especialmente no contexto das doenças neurológicas.
Durante a atividade física, há um aumento da circulação sanguínea, o que significa mais oxigénio e nutrientes a chegar ao cérebro. Este processo ajuda a manter as células nervosas mais ativas e funcionais.
Ao mesmo tempo, o corpo liberta várias substâncias importantes, como endorfinas e outros neurotransmissores, que influenciam o humor, a motivação e até a perceção de esforço. É uma das razões pelas quais muitas pessoas se sentem melhor física e mentalmente depois de se mexerem.
Outro ponto-chave é a chamada neuroplasticidade.
De forma simples, trata-se da capacidade do cérebro de se adaptar, reorganizar e criar novas ligações ao longo do tempo. E o exercício físico tem sido associado ao estímulo deste processo, ajudando o cérebro a encontrar novas formas de funcionar, mesmo quando existem alterações.
Há ainda evidência de que a atividade física pode contribuir para a redução de processos inflamatórios e para uma melhor regulação do sistema nervoso. E estes são fatores relevantes em várias condições neurológicas.
No fundo, mexer o corpo não é apenas uma questão física. É também uma forma de estimular o cérebro.
E essa ligação ajuda a perceber porque é que o exercício começou a ser visto de outra forma neste contexto.
Durante muito tempo, a ideia de que pessoas com Esclerose Múltipla deveriam evitar esforço físico era amplamente aceite. O receio de agravar sintomas, sobretudo a fadiga, levou a uma abordagem mais conservadora.
A evidência científica atual mostra que o exercício físico, quando adaptado, é seguro e pode trazer vários benefícios para pessoas com Esclerose Múltipla.
Programas de exercício, incluindo treino de força, resistência e mobilidade, têm sido associados a ganhos na capacidade de realizar tarefas do dia a dia, como caminhar, subir escadas ou manter o equilíbrio.
Este é outro ponto importante. Apesar de parecer contraintuitivo, a atividade física regular pode ajudar a reduzir a sensação de cansaço ao longo do tempo.
Em vez de agravar, o movimento controlado pode contribuir para uma melhor regulação da energia.
Há também benefícios ao nível da qualidade de vida dos doentes.
Estudos indicam melhorias no bem-estar geral, no humor e até na perceção de autonomia. Pequenos progressos físicos podem ter um impacto significativo na confiança e na forma como a pessoa lida com a doença.
Apesar destes benefícios, importa reforçar que isto não significa que o exercício substitui tratamento médico ou que os efeitos são iguais para todos.
Mas significa que, dentro de um plano ajustado às capacidades individuais, o movimento pode fazer parte da abordagem. Não como risco, mas como complemento.
Assim, o foco deixa de ser evitar o esforço e passa a ser adaptar o movimento.
A Esclerose Múltipla não é o único caso em que o exercício físico tem vindo a mostrar impacto positivo.
Em várias doenças neurológicas, o movimento adaptado tem sido associado a melhorias relevantes na função e na qualidade de vida.
Há também um impacto importante ao nível da saúde mental.
Ansiedade, alterações de humor e isolamento social são comuns em várias doenças neurológicas. O exercício pode funcionar como um suporte adicional, ajudando a melhorar o bem-estar emocional e a sensação de controlo.
Mais uma vez, claro que não se trata de soluções milagrosas. Mas o movimento traz efetivamente benefícios quando o tema são doenças neurológicas (tal como acontece com outras patologias, como doenças oncológicas, por exemplo).
Isto significa que, mesmo em contextos de doença, o corpo e o cérebro continuam a responder ao estímulo do exercício.
A resposta não é única e isso é importante.
Em doenças neurológicas, o mais relevante não é seguir um plano rígido, mas adaptar o movimento às capacidades, limitações e fase da condição.
Ainda assim, há alguns tipos de exercício que tendem a ser mais utilizados e estudados:
O treino de força ajuda a manter ou melhorar a massa muscular, a estabilidade e a capacidade funcional no dia a dia. Pode ser feito com pesos, elásticos ou até com o peso do corpo.
Caminhada, bicicleta ou outras atividades de intensidade moderada contribuem para a resistência e saúde geral. A tendência do soft fitness até pode ser uma boa aposta em alguns casos, desde que bem estruturada e aplicada.
São importantes para manter amplitude de movimento, reduzir rigidez e facilitar tarefas simples do quotidiano.
Fatores especialmente relevantes em condições que afetam o controlo motor, ajudando a reduzir o risco de quedas.
Outro ponto essencial nestes casos é a intensidade, porque nem sempre mais é melhor.
O objetivo não é atingir o máximo esforço, mas encontrar um nível que seja desafiante sem ser excessivo. Em muitos casos, sessões mais curtas e consistentes acabam por ser mais eficazes do que esforços pontuais mais intensos.
E a regularidade faz toda a diferença. Mais do que o tipo exato de exercício, é a consistência ao longo do tempo que tende a trazer resultados.
Falar de exercício em doenças neurológicas implica sempre um ponto essencial: não existe uma abordagem única que funcione para todos.
Cada pessoa tem sintomas, limitações e níveis de energia diferentes, e isso deve ser tido em conta.
O que funciona para uma pessoa com Esclerose Múltipla pode não fazer sentido para outra com o mesmo diagnóstico. A intensidade, o tipo de exercício e a frequência devem ser ajustados à realidade de cada caso.
Outro aspeto importante é o acompanhamento profissional.
Sempre que possível, o exercício deve ser orientado por profissionais qualificados, como fisiologistas do exercício, fisioterapeutas e personal trainers, que consigam adaptar o plano de forma segura e progressiva.
Há também sinais a que convém estar atento:
Nestes casos, pode ser necessário ajustar a intensidade, a duração ou até o tipo de atividade.
No caso específico da Esclerose Múltipla, por exemplo, há um fator adicional: a sensibilidade ao calor. O aumento da temperatura corporal pode agravar temporariamente alguns sintomas, pelo que estratégias como treinar em ambientes frescos ou fazer pausas regulares podem fazer diferença.
Encontrar um equilíbrio nem sempre é imediato. Mas é essencial para que o exercício seja uma ferramenta útil e não mais uma fonte de frustração ou risco.
Sem promessas exageradas ou soluções universais, o que sabemos é isto: o movimento pode ter um papel relevante na forma como o corpo e o cérebro respondem à doença.
No caso da Esclerose Múltipla, essa mudança é particularmente clara. O foco deixou de estar em evitar o esforço e passou a centrar-se na adaptação para encontrar formas seguras e ajustadas de manter o corpo ativo.
E essa lógica estende-se a outras condições neurológicas.
O exercício pode contribuir para melhorar a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida. Porque, mesmo em contextos de maior desafio, o corpo continua a responder ao estímulo.