PLANO DE TREINO
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Se quando éramos pequenos tudo parecia ser grande, hoje, já crescidos, o que era maior passou a tornar-se cada vez mais pequeno. Estamos a falar do verão. É ele o senhor que se segue. Lembras-te daqueles verões na infância que pareciam não ter fim? Arriscamos-nos a dizer que chegavas a “fartar-te” das férias e setembro era ainda tão distante. Diz a verdade! As tão desejadas “férias grandes” começavam em junho e só terminavam em setembro. Os dias de verão tinham “mais horas” do que aquelas que cabiam na realidade com tanto tempo. Dias sem fim, brincadeiras até ao anoitecer, sem distrações, sem ecrãs. No regresso às aulas, tinhas aventuras, muitas, para contar.
Hoje, não é assim. É uma espera sem fim pelas férias e quando dás por isso, elas já passaram. A tua perceção é que o tempo voou, e vês-te a planear o regresso às aulas ou ao trabalho e os treinos no Fitness UP. Mas porque é que isto acontece? Será que os dias de julho e agosto têm menos horas do que os de janeiro? Obviamente que não. No entanto, a nossa perceção muda drasticamente quando o calor aperta. Existe uma explicação psicológica para sentires que o verão desaparece num piscar de olhos. Compreender este fenómeno é o primeiro passo para conseguires, finalmente, abrandar o ritmo e desligar o ruído à tua volta.
No Fitness UP, sabemos que o treino é muito mais do que uma questão física. É uma ferramenta de concentração. Por isso, importa perceber porque é que o teu cérebro entra em sobrecarga no verão. Como vês, tudo tem uma razão de ser! Desta forma, vais compreender como o cérebro constrói a experiência do tempo e essa, ao contrário do que possas pensar, está longe de ser constante e monótona. No entanto, sentimos exatamente o oposto. Porquê? As férias estão aí, por isso faz as malas.
Para percebermos porque é que o verão passa a correr, precisamos primeiro de compreender como é que o cérebro interpreta a perceção do tempo. Ao longo do ano, quando estás na tua rotina habitual — casa, trabalho, ginásio, deslocações –, o teu cérebro entra em modo piloto automático, porque reconhece os trajetos, os “afazeres” e não “perde tempo”. Como os dias são muito parecidos uns com os outros, a mente simplesmente deixa de registar os detalhes mais pequenos. Afinal, não há necessidade de gastar energia a criar novas memórias para acontecimentos repetitivos.
O psicólogo William James foi um dos primeiros a estudar a perceção do tempo, em 1890. Ele explica que o cérebro mede o tempo em duas formas distintas – enquanto vivemos e quando olhamos para trás, em retrospetiva. Na infância, como quase tudo é novidade, e está cheia de “primeiras vezes” o cérebro regista tudo em “pormaior”, com memórias detalhadas. Enquanto adultos, com todas as rotinas que temos, o cérebro deixa de registar os pormenores. Logo, quando olhamos para trás, a nossa mente tenta medir a duração do mês pelo número de memórias novas que guardou. Se não as tiver ou encontrar, assume que o tempo passou a correr. Isto parece contraditório, mas sobre a perceção do tempo, quanto mais rotinas temos, mais depressa parece passar o tempo enquanto vivenciamos experiências e quando olhamos para trás, é sempre “curto”. O tempo “não tem pressa”, nem avança a ritmos diferentes, tem a mesma precisão, seja qual for o mês do ano.
O que muitas vezes acontece é que vivemos o verão em fast-forward, queremos fazer tudo ao mesmo tempo e acabamos por “atropelar” às idas à praia, com os passeios ou as atividades no sítio onde estamos a passar as férias. Ao mesmo tempo que queres desacelerar, acabas por andar numa correria. Queres ir à festa do bairro, ir jantar ao festival da sardinha, mas também dormir, visitar monumentos, ir à praia e à piscina. Como vês, tu enches as tuas férias com tantas coisas apressadas que não dás conta do tempo a passar. Não lhe estás a dar atenção. Tu dizes “Não deu para nada, passou a correr.” E nós, “Tu encheste o verão de coisas.”. Não tenhas pressa.
Ai o telemóvel, esse malandro que te rouba tempo! Todos sabemos que fazer “pause” é na verdade um desperdício de tempo. Porquê? Perdemos horas a fazer scroll infinito em que o cérebro está só a processar informação rápida e inútil. Logo, o corpo está parado a descansar, mas a mente está constantemente a processar estímulos que desaparecem sem dares por isso e sem registo. São dias cheios de nada. No fim, ficas só com fragmentos vazios, porque o dia passou a correr. Na verdade o que passou a correr foi, literalmente, tempo perdido, sem atenção ou dividida com um ecrã. Esta é a verdade que não queres ouvir!
E agora, vamos falar de treino? Sim, lá porque estás de férias não significa que tens um rest day, diariamente. Põe-te a mexer! Sim, sim! Sabias que o exercício físico pode ajudar-te a quebrar este ciclo de “marasmo” e de deambular entre o Instagram e o X, só para não perderes nada do que está a acontecer na tua “ausência”. O treino é um estímulo muito interessante, pois é uma forma do cérebro sair do “piloto automático” e focar-se no momento presente. Exige a tua presença. O agora. Durante o treino o corpo e a mente estão interligados, são obrigados a cooperar para não falhares. Esta exigência física força o teu cérebro a processar estímulos internos e externos em tempo real: a tua respiração, a postura, o esforço muscular, o ritmo cardíaco. Ao fazeres isto, estás a estimular a tua atenção no "aqui e agora". Este estado de atenção plena (ou mindfulness corporal) interrompe o fluxo acelerado de pensamentos sobre o futuro ou o passado, fazendo com que o tempo que passas a treinar seja vivido com uma intensidade muito maior. Como estás presente e focado na técnica ou a forma como o teu corpo reage à fadiga, a tua mente cria uma experiência rica em estímulos. A perceção do tempo transforma-se. Agora vai lá treinar!
Passamos à ação? Mexe-te. Podes fazê-lo através de pequenas alterações conscientes na tua rotina de treinos e no teu dia a dia. Aqui tens quatro estratégias práticas que podes começar a aplicar já a partir de amanhã no teu Fitness UP:
O movimento físico, por si só, ajuda a criar memórias. Muda a rotina, nem que seja em pequenas doses: Faz o teu treino ao ar livre em vez de no ginásio. Troca a caminhada habitual por um percurso novo. Experimenta um desporto de verão que nunca fizeste, stand-up paddle, surf. Mexe-te mais, e mexe-te de forma diferente.
O telemóvel é o que te faz perder mais tempo. Já sabes! Quando passas os teus tempos de descanso entre séries a olhar para o ecrã, estás a armazenar informação que a mente vai apagar, enquanto os minutos passam sem dares por isso. Deixa o telemóvel trancado ou fechado a cadeado no cacifo. Usa esse tempo para te focares na tua respiração, ou apenas para “desligar”. Faz pausas “conscientes”, sem telemóvel por perto. Nem que seja uns minutos por dia. Senta-te num terraço, sem ecrã nenhum à frente, e repara no que está à tua volta. O sol a tocar na pele, o som das vozes ao teu redor, a mescla de cheiros no ar. Parece pouco, mas não é. Experimenta!
Não queiras treinar só porque tem que ser! Mas, não desperdices um treino. Assim que acabares, aproveita para registar o que fizeste. Podes registar as rep´s e séries que fizeste, as cargas, como te sentiste fisicamente ao longo do treino. Os exercícios que correram melhor, aqueles em que tiveste dúvidas ou os que precisas de corrigir. Quando registas estes dados, obrigas o cérebro a processar e reforçar esta experiência. Pronto? 1, 2, 3, quatro. Será que ainda me falta uma série?
Não enganas ninguém quando dizes que “tens tempo”. Todos sabemos a correria que é andar de um lado para o outro. Não errámos, pois não? A tua mente não tem tempo para assimilar todas as tarefas, tudo o que acontece no teu dia. O que podes fazer é ter pequenos hábitos para abrandar. Depois no treino, ainda no ginásio, faz alongamentos, toma um duche mais demorado, bebe água fresca enquanto o corpo recupera. São estes momentos que fazem o cérebro consolidar a experiência de treino e registar na mente o teu esforço. E por fim, podes documentar, mas sem exageros! Uma fotografia, não para a publicares, mas para guardar, aqueles “muitos” que não se mostram e não são para publicar com a descrição “Lost files from the summer” no teu Instagram. Tu não queres ser mais um!
O verão não acabou! Tal como o corpo, também o cérebro precisa de estímulos novos, sem pressa, sem mil planos atafulhados uns nos outros. A pressa tira-te tempo. O telemóvel também. Se não queres ver o verão passar através da lente de qualquer ecrã, desliga-te. Todos sabemos que andamos sempre a correr atrás do tempo. Ter tempo para isto, para aquilo, ou “não posso porque não tenho tempo”. Sabes como é, não sabes? Será que não tens mesmo tempo, ou tens uma perspetiva diferente sobre ele?
O tempo não é estático, o tempo que tu gastas no trabalho ou nas aulas é exatamente o mesmo que gastas nas férias. Por muito que penses que não. Tu esticas-te para chegar a todo o lado, e acabas por entrar em piloto automático. A tua mente não tem interesse em ações repetidas. Grava o teu verão na memória, não no telemóvel.
As horas que cabem no teu tempo, são iguais para toda a gente. Não existem tempos diferentes. No teu plano para este verão, treina. O treino ajuda-te a sair do ciclo repetitivo do dia a dia. Mantêm-te em movimento, mexe-te. Seja de que forma for, cria memórias. Sem pressa, sem pressão. O verão não passa depressa, ele deixa marcas. Não apenas na pele. Não te distraías.