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Disseram que as mulheres e os seus corpos eram muito frágeis para competir ao mais alto nível, que não conseguiam correr longas distâncias, nem fazer grandes feitos no mundo do desporto e do fitness. A verdade é que, nos últimos anos, a performance feminina está a deixar marcas na história e a revolucionar o desporto, mostrando que o que diziam, sobretudo os mais conservadores, eram apenas calúnias.
Mais do que competir, as mulheres estão a transformar o jogo, a alimentá-lo com resiliência e superação numa luta que transcende o próprio desporto. Este artigo procura evidenciar este crescimento e chamar a atenção dos mais distraídos para o longo caminho que ainda falta percorrer no desporto e no fitness feminino.
É impossível compreender a evolução das mulheres no desporto e no fitness, sem recuarmos na história, aos tempos em que havia muito mais barreiras do que oportunidades para as mulheres mostrarem as suas valências.
Durante muitos anos, as mulheres foram proibidas de praticar desportos com maior intensidade física porque a comunidade médica alegava que poderia prejudicar a saúde reprodutiva e o bem-estar físico. Prova disso, foram os primeiros jogos olímpicos modernos, realizados em 1896, que tiveram apenas eventos masculinos.
No decorrer da Primeira Guerra Mundial, a Associação Inglesa de Futebol proibiu as mulheres de jogar na Liga de Futebol, declarando o desporto “completamente inadequado para mulheres” – uma proibição que durou 50 anos.
Mais recentemente, as saltadoras de esqui foram impedidas de participar nas Olimpíadas de Inverno até 2014, apesar de terem competido internacionalmente desde a década de 1990, com o oficial olímpico a alegar, em 2005, que o desporto era clinicamente inadequado para mulheres.
Contudo, mulheres extraordinárias venceram barreiras e provaram que as suposições médicas e opiniões gerais estavam erradas. Com resiliência e coragem, demonstraram que não havia obstáculos que as impedisse de competir e elevaram a performance feminina aos mais altos patamares do desporto. Um exemplo desta conquista, foi registado em 2024, nas Olimpíadas de Paris: pela primeira vez, 50% dos atletas que participaram eram mulheres.
Pioneira na corrida feminina a meia distância. Venceu a medalha de ouro nos 800 metros em 1928, nas Olimpíadas de Amesterdão. Embora a vitória tenha sido histórica, porque estabeleceu o recorde mundial, as autoridades removeram o evento das Olimpíadas até 1960, alegando que era muito extenuante para as mulheres.
Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, com 30 anos e dois filhos, conquistou quatro medalhas de ouro. Foi apelidada “dona de casa voadora”, refletindo o pensamento conservador da época. A sua vitória mostrou que a alta performance feminina era compatível com a maternidade.
Em 1966, tornou-se a primeira mulher a correr a maratona de Boston. Mas, como não era permitido mulheres participaram na corrida, Bobbi Gibb começou sem um número oficial. Seis anos depois, Boston aceitou oficialmente as corredoras.
Foi a primeira portuguesa campeã olímpica, ao vencer a maratona nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Foi uma das maiores maratonistas da história e a sua vitória simbolizou o crescimento e o auge do atletismo feminino português.
Entre 2010 e 2020, segundo uma notícia do Diário de Notícias, o desporto feminino cresceu em média 3527 atletas por ano. Ou seja, numa década, Portugal ganhou 35 270 atletas femininos – aumento que se revelou superior ao dos homens.
Apesar dos progressos, a paridade no desporto ainda está muito longe da realidade. Portugal tem apenas 140 atletas olímpicas e seis medalhistas: Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Vanessa Fernandes, Telma Monteiro, Patrícia Mamona e Patrícia Sampaio.
Podes consultar aqui as 40 mulheres mais influentes no desporto em Portugal.
As mulheres cravaram a sua marca nos desportos tradicionais, mas também no fitness em geral. Isto acontece pela mudança de pensamento: treinar não apenas para competição ou a favor da beleza estética, mas também para ter o corpo forte e saudável.
É dos exercícios físicos com maior participação feminina, que une a componente física e mental, ajudando a que os praticantes se sintam mais leves, com melhor postura, e com o corpo fortalecido.
O Yoga, quando praticado com regularidade, contribui para o bem-estar físico, emocional e hormonal. Qualquer sala de aula de Yoga é ocupada sobretudo por mulheres.
A ideia conservadora de que certos desportos não são clinicamente aconselhados a mulheres vai por água abaixo com a performance feminina no CrossFit. Uma prática de enorme exigência física que tem atraído cada vez mais mulheres.
Na edição de 2018 do Crossfit Open, uma das maiores competições abertas de CrossFit, cerca de 43% dos participantes eram mulheres.
As mulheres estão a ficar cada vez mais fortes e mais interessadas nos treinos de força, incluindo competição. Um estudo de 2025 refere que, ao longo de 16 anos, participaram 9447 atletas femininas nos 700 eventos da International Fitness & Bodybuilding Federation. Este número refere-se às atletas que competiram, não ao total mundial de praticantes de culturismo feminino.
O treino funcional também é uma tendência no fitness feminino. Cada vez mais, as mulheres procuram este tipo de treino que alia o peso do próprio corpo à utilização de pesos e acessórios como kettlebells, bolas medicinais, entre outros.
O triatlo feminino é um desporto em expansão. O primeiro evento de triatlo feminino nos jogos olímpicos foi em 2000, nos Jogos Olímpicos de Sydney. Desde então, tem vindo a crescer exponencialmente. Prova disso, são os relatórios da International Triathlon Union, ao referirem que as mulheres já representam entre 35-40% dos atletas em competição.
O desporto e o fitness feminino cresceram muito, sobretudo nos últimos anos. A evolução dos tempos, e a mudança de mentalidades, ajudaram a romper com velhas crenças e a permitir admirar e desfrutar do desempenho das mulheres no desporto em geral.
Esta evolução ao encontro da paridade, libertou a mulher dos afazeres domésticos e da submissão ao homem e à vida maternal, permitindo agora que haja tempo para treinar, praticar desporto, dançar numa escola, ou competir numa modalidade.
A ciência também veio sustentar a importância do exercício físico para o bem-estar emocional, mental e físico das mulheres. Estudos referem mesmo que mulheres que praticam exercício físico regularmente apresentam um risco significativamente menor de morte prematura ou morte por evento cardiovascular do que homens que praticam exercício regularmente, mesmo quando o esforço das mulheres é menor – contestando assim as velhas crenças da comunidade médica.
A tecnologia tem um papel cada vez mais importante na prática de exercício físico: ajuda a monitorizar o desempenho (apps de controlo de métricas), aumentar a motivação (música ou podcasts), personalizar o treino (apps de gestão de treino), e a promover a sensação de segurança (GPS), sobretudo nas mulheres.
Os dispositivos eletrónicos mais utlizados são os telemóveis, smartwatches e auscultadores. Quanto bem utilizados, estes dispositivos facilitam a melhoria da performance feminina: mais foco, motivação, monitorização e segurança.
Embora os progressos no desporto feminino sejam notáveis, ainda existem muitos obstáculos para a igualdade na prática de exercício físico. Sobretudo quando falamos de assédio e insegurança.
Pesquisas indicam que 76% das mulheres sentem-se desconfortáveis quando treinam em público. Um estudo da Runner's World em 2021, com mais de 2000 mulheres, concluiu que 60% das mulheres sofreram de assédio enquanto corriam, 20% foram alvo de comentários sexistas e investidas sexuais indesejadas, e 6% disseram temer pelas suas vidas.
As desigualdades salariais continuam a ser um obstáculo da performance feminina. De acordo com um relatório da Federação Internacional das Associações de Futebolistas Profissionais, de 362 jogadoras que participaram nas eliminatórias do Campeonato do Mundo de 2023, 29% não receberam qualquer remuneração. Ou seja, tiveram de retirar uma licença sem vencimento para poderem participar nas eliminatórias..
Apesar do crescimento do desporto feminino, de acordo com uma pesquisa da Sport Integrity Global Alliance 2023, apenas 26,9% dos cargos executivos em federações desportivas internacionais eram ocupados por mulheres. Mesmo nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020, apenas 13% dos treinadores eram mulheres. Estes números refletem a desigualdade entre homens e mulheres no desenvolvimento do desporto.
A performance feminina tem evoluído em todos os campos do desporto e do fitness, mas continua refém de estereótipos, de mentalidades antigas sobre a mulher ser inferior ao homem no exercício físico e na capacidade de liderança, e a violência em forma de assédio e abusos sexuais que tornam a prática de exercício físico desconfortável para a mulher, seja a correr sozinha ou num treino de grupo.
As mulheres já marcaram o seu legado no desporto e no fitness. Com coragem, força e resiliência superaram barreiras históricas e preconceitos enraizados. São uma inspiração e uma demonstração de que o talento e a conquista não têm género. Mais do que uma tendência positiva, a alta performance feminina veio mesmo para ficar.
Em desportos federados, modalidades individuais, equipas, corridas semanais, ou no ginásio ao virar da esquina, as mulheres continuam a evoluir com o desporto e o desporto a evoluir com as mulheres. Contudo, ainda existem muitos obstáculos para fintar. Cabe-nos a nós, independentemente do nosso género, lutar contra essas barreiras.
As empresas e a organizações também têm um papel fundamental na promoção do desporto feminino. O Fitness UP defende a igualdade, e fomenta através dos seus ginásios um mundo onde não se vê a cor, o sexo ou a religião. Que sonha, acima de tudo, com um mundo igual e com oportunidades iguais.