PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Vamos pensar no nosso corpo como um telemóvel: esqueces-te do carregador em casa, estás com 17% de bateria, o dia ainda agora começou e, trágico, ninguém tem um carregador que te possa safar. O que é que fazes? São várias as opções: ou te controlas para não entrares num buraco negro de reels e respondes mais tarde às DM, ou alteras o sistema para modo avião. Ou, medida de emergência máxima, desligas o telemóvel. E quem sabe, dês tempo a esta maravilha da tecnologia para recuperar um pouco e, ao fim do dia, já consegues fazer uma chamada curta.
E o que é que isto tem que ver com treinar, perguntas tu. Em resumo: tudo. Da mesma forma que decides exigir menos do telemóvel se está com pouca bateria, deves fazer o mesmo com o teu corpo.
Imagina o seguinte cenário: dormiste pouco (ou mal) e acordas cansado, comeste um pacote de bolachas (ou nem isso) a caminho do trabalho ou da faculdade. No entanto, tens um treino específico programado! E a ideia de o suavizar nem te passa pela cabeça. Pelo contrário: decides que aumentar carga é o que precisas para acordares para a vida! Aumentar carga quando falta energia é um grandessíssimo erro, porque as chances de te lesionares aumentam bastante.
OK, OK, concordamos que este exemplo pode ser exagerado. O importante é que captámos a tua atenção para o perigo de aumentar carga em situações de fadiga. Portanto, prepara-te para ficares a perceber a fundo os motivos por que aumentar carga quando falta energia é errado. Para te dar ânimo, fica a saber que bastam algumas alterações estratégicas para fazeres ótimos treinos, mesmo com menos energia.
A verdade nua e crua é que não basta dizeres umas quantas frases motivadoras para ti mesmo e entrares no mindset "vencedor" para que uma energia sobre-humana desça sobre ti quando estás com a energia (quase) a zeros.
Porque a energia não é motivação; é, em grande parte, fisiologia. Vale bem a pena desmistificar que a falta de energia não é sinal de fraqueza, mas sim um sinal de que és apenas humano. Basicamente, os níveis de energia dependem dos seguintes aspetos:
Portanto, se um ou mais destes aspetos estiverem comprometidos, e ainda que a tua motivação esteja a bater recordes, o teu corpo não está preparado para aumentar carga quando falta energia. Não tem de ser dramático, porque é apenas e só biologia em ação.
Continuemos na saga das analogias tecnológicas. E vamos, agora, pensar no treino como se estivéssemos a fazer uma atualização de software. Imagina que decides fazer a instalação de um update super pesado, a rebentar de funcionalidades xpto, mas o teu sistema operativo não está preparado. É normal que crashe, certo?
Aumentar a carga quando o teu sistema não está a 100% é sinal de alerta para "risco de lesões aumentado". Simplificando: aumentar carga não exige apenas esforço extra dos teus músculos e das articulações. Exige também mais entrega do teu querido SNC.
Como ninguém quer receber a notificação de "lesão aderiu à conversa", fica a saber por que motivos é que isto acontece, ao mesmo tempo que identificas comportamentos de risco e aprendes a prevenir lesões sem aumentar carga quando falta energia:
Há determinadas dores que fazem parte do processo e que nos dizem que estamos no bom caminho. A sensação dos músculos a arder e a respiração que se vai tornando mais ofegante à medida que o esforço aumenta são duas delas.
Outras, pelo contrário, são o equivalente a uma sirene dos bombeiros:
Portanto, se queres manter-te longe das tendinites, das distensões musculares, da inflamação constante e daqueles estalos marados que nos fazem panicar, já sabes: aumentar carga quando falta energia é um big no-no!
Lembra-te também que, a longo prazo, quem evolui mais não é quem entra no loop de aumentar carga, lesionar-se, parar e recomeçar. A verdadeira superação obtém-se com consciência corporal: aumentar carga quando necessário, prevenir lesões e treinar de modo consistente.
"OK, mas e se fizer um aquecimento esmerado?" Não importa, pois o aquecimento, mesmo que excelente, não substitui, voltando às nossas analogias, o carregamento da bateria. E os motivos são, entre outros:
Lá por não aumentares carga não quer necessariamente dizer que é dia de te baldares ao treino. Porque apesar de te sentires cansado, não tem que ser um dia perdido. Mete a frustração de lado e, em vez de te ficares a lamentar por não conseguires cumprir o plano a regra e esquadro, think smart.
Como o mais importante é ser consistente, segue as nossas estratégias inteligentes para dias em que a fadiga é o teu nome do meio. Ou seja, em vez de te perguntares "Será que consigo pôr mais peso hoje?", pergunta-te "Afinal, qual o estímulo mais adequado para o meu corpo hoje?" e evita decisões impulsivas e arriscadas:
Tão importante quanto alterar o plano de treino é calar o ego e deixá-lo à porta do ginásio. Pois, se formos totalmente honestos, muitas vezes o que custa mais não é gerir a frustração, mas sim a pressão que colocas sobre ti próprio. Infelizmente, ceder ao ego é como estar numa relação tóxica.
Ainda que sintas pressão para manter a média e que a tua crush do ginásio tenha decidido, precisamente no dia em estás com falta de energia, estar na barra ao teu lado, não forces!
Reconhece quando é dia de puxar, de manter ou de reduzir carga. Portanto, acima de tudo, ajusta expectativas. A diferença entre ti e a tecnologia é que não precisas de fazer shut down e dar o dia como perdido. E, como vês, não aumentar carga não é sinónimo de "Bah, hoje só posso ir à aula de yoga".