PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Há coisas que não sabemos, mas acabam por definir o rumo da nossa vida. A “Checklist do Amor” é uma delas. Não é assumida como regra, mas está lá, sem darmos por isso, a influenciar decisões, a criar filtros, a aproximar ou afastar pessoas. Entrámos em piloto automático, filtrando cada interação, cada olhar e cada mensagem que recebemos.
Se ficarmos só pelo óbvio, parece simples: trata-se daquilo que procuramos em alguém. Um guião que nos ajuda a não perder tempo, a não repetir erros, a escolher melhor. Mas a verdade é que esta ideia fica muito aquém da realidade. Ela ignora a complexidade de quem somos e, acima de tudo, ignora o facto de que esse filtro não é estático, ele é moldado pelas tudo o que nos magoou antes, pelos nossos medos e pela nossa disponibilidade para o outro.
Porque essa checklist não surge no momento em que conhecemos alguém. Não é construído apenas a partir de experiências amorosas recentes. Ele vem de trás, da forma como crescemos, do que aprendemos sobre relações, daquilo que vimos em casa, do que foi valorizado, do que foi criticado, aceite ou rejeitado. E, sobretudo, da forma como aprendemos a olhar para nós próprios.
É aqui que este desafio se torna sério. Porque, muitas vezes, aquilo que parece ser um conjunto de critérios sobre o outro é, na verdade, um reflexo da relação que temos connosco. Se a tua exigência contigo é intransigente, como esperas ter paciência para as imperfeições de quem acabas de conhecer? Se não permites falhar no treino, na dieta ou no trabalho, dificilmente vais permitir que alguém entre na tua vida com as suas próprias imperfeições. A checklist é, muitas vezes, um espelho onde refletimos a nossa dificuldade em aceitar as falhas que nos tornam humanos.
Vivemos num ritmo que nos empurra para a performance constante. No Fitness UP, vemos isso todos os dias: o impulso de bater PR´s, de atingir objetivos, de ser "melhor hoje do que ontem". Mas há um equilíbrio muito frágil entre a superação saudável e a autocrítica destrutiva. Quando levas esse nível de exigência para as tuas relações, a tua checklist faz com que ninguém se consiga aproximar.
Tu não estás apenas a analisar perfis, estás a projetar as tuas inseguranças. Se a tua checklist exige que a outra pessoa seja "perfeita" em 50 pontos diferentes, talvez seja porque tu sentes que, se não fores perfeito, ninguém te vai levar a sério. Sentes isso na pele. É um beco sem saída. Usamos a lista para nos protegermos do imprevisto, mas o amor vive precisamente no que não conseguimos prever.
Esta atitude vê-se nas pequenas coisas. É quando rejeitas alguém porque não tem exatamente os mesmos interesses que tu. Estás a tentar criar um mundo sem atrito, mas é no atrito e na diferença que as relações ganham músculo. Sem desafio, não há crescimento, nem no ginásio, nem no coração. Quando exigimos que o outro seja uma extensão perfeita da nossa rotina, estamos a impedir que ele nos traga novas perspetivas. Uma relação não é um espelho, é quando dás espaço ao outro. E no dia a dia, naquilo que decidem partilhar, que a relação se constrói.
Vamos ser frontais: estamos esgotados. Não estamos a falar-te daquele cansaço de quem acabou um treino de alta intensidade e sente a endorfina a correr nas veias, não é isso. É a falta de paciência que vem do cansaço tecnológico. É uma exaustão mental que vem do excesso de informação, das horas passadas em frente a ecrãs, a pressão de ter de responder a tudo no imediato. Quando a tua energia está no limite, a tua vontade de dar uma oportunidade a alguém, desaparece. Ter paciência passa a ser um esforço que já não estás disposto a fazer.
A checklist surge aqui como uma espécie de "filtro de sobrevivência". Como não tens disponibilidade mental para lidar com a complexidade de um ser humano com os seus traumas, tentas simplificar tudo. Se a pessoa não faz match imediato, passas à próxima. Não é por seres arrogante ou insensível, é porque não tens paciência para começar do zero com alguém que não conheces. Estás tão cansado que a vontade de saber mais sobre o outro, fica fora do plano.
Este cansaço leva-nos a querer relações que funcionem como uma app de entrega ao domicílio: fazemos o pedido, escolhemos os ingredientes e queremos que chegue à porta pronto a consumir, sem atrasos. Mas as pessoas não são encomendas. Elas exigem tempo, paciência e, acima de tudo, a tua presença.
A checklist é o filtro de quem já não tem paciência. Tu sabes! Mas ao escolheres apenas o que não dá trabalho, acabas por ficar sozinho. Relações dão trabalho a construir. Ponto.
“Não tenho tempo para isto.” É o que todos dizemos. Temos tanta pressa em encontrar o “nosso match” que nos esquecemos de conhecer a pessoa que está à nossa frente. Precisamos de tempo, não de nos desculparmos com a falta dele. O amor é assim, no entanto, não precisas de te deixar cair de paraquedas. Só precisas de tempo. É isto. A checklist é o que sobra da nossa pressa de ir a lado nenhum. Se não sentimos um click nos primeiros minutos, achamos logo que estamos a perder tempo. Mas tempo para quê? Para irmos a correr fazer o mesmo de sempre? Para passarmos mais uma hora agarrados ao telemóvel ou ao trabalho? Corremos numa pressa desenfreada e vazia. Pensa nisto.
Esta checklist exige “passos” e se os saltares, mesmo que não percebas, vai acabar por ficar sem ninguém e que foi tempo perdido. No treino, tu sabes que o corpo não muda só porque sim, há dias que tudo parece estagnado, mas não desistes. Sobre o amor, é a mesma coisa. Construir uma relação de verdade, também implica não desistir. Espera por conversas sem sentido, silêncios que dizem tudo, e acreditar que consegues ver quem está do outro lado quando desligas o ecrã. Não te limites a dar ghosting só porque foi um instante. Lembra-te que também não gostarias que te fizessem o mesmo.
Quando vivemos em modo de sobrevivência, o nosso sistema nervoso está em constante alerta. É quase impossível estares disponível para o outro quando te sentes sobrecarregado. A checklist é, aqui, uma tentativa do teu cérebro reduzir o stress. O problema é que o cérebro deixa de distinguir um perigo de uma simples diferença de hábitos, como quando alguém falha o treino de perna – todos sabemos que poucos gostam deste dia no ginásio, ou simplesmente não concorda contigo. Para quem já está exausto, qualquer desvio do padrão é um desgaste.
O cansaço tira-te a disponibilidade para o que não é óbvio. Quando estás no limite, até o pormenor mais pequeno se torna uma chatice. Verdade? É mais fácil afastar quem te tira do sério do que ter a paciência para descobrir quem está do outro lado. Acabas por escolher continuar sozinho porque o outro exige uma atenção que já não tens para dar.
No Fitness UP, desafiamos-te a que o teu corpo ganhe resistência e se adapte. Nas relações, a lógica é a mesma: não baixes os braços à primeira no rep. Uma relação não se constrói do dia para a noite. Tal como no treino, a evolução exige consistência e persistência, se evitas o esforço mal sentes uma pequena dor e que pode ser uma lesão, nunca vais evoluir. Se não queres ficar sozinho, não treines a tua relação como se estivesses apenas a fazer um aquecimento e a seguir deitas a toalha ao chão. Toca a mexer.
A era digital agarra-nos de tal forma à comparação constante que nem percebemos que avaliamos tudo como se fosse uma embalagem. Passamos o dia a ver imagens que parecem anúncios e filtros que escondem a realidade. Inconscientemente, a nossa checklist começa a incluir critérios estéticos e de estatuto que não têm nada a ver com a felicidade ou com a compatibilidade emocional.
Estamos a escolher pessoas como quem faz scroll infinito em ecrãs. Queremos saber se o outro "fica bem" na nossa fotografia ou se é para nos dar likes no perfil e mostrar as aparências. Isto não é proximidade, é vivermos preocupados com o que os outros acham. Quando escolhes um perfil, estás a escolher numa vitrine. Quando escolhes uma pessoa, estás a aceitar a “desarrumação” e a realidade tal como ela é com a outra pessoa.
Se a tua checklist for uma coleção de requisitos para impressionares os outros, vais acabar com alguém que fica bem na moldura, mas que não te diz nada. O verdadeiro impacto acontece quando deixamos de dar importância ao que os outros veem e permitimos que o outro nos surpreenda, fugindo completamente ao que tínhamos imaginado. As relações são caóticas, despenteadas e, muitas vezes, vão estragar a fotografia. E ainda bem.
Como é que saímos deste ciclo de exaustão e exigência? Como é que voltamos a escolher pessoas em vez de perfis? Primeiro, reconhecendo que a perfeição é uma mentira que nos contam só para nos deixar insatisfeitos com o que temos. Depois, percebendo que a nossa lista de critérios é, muitas vezes, um mecanismo de defesa que construímos para não termos de lidar com a nossa própria vulnerabilidade e com o medo de sermos rejeitados se nos mostramos como somos.
Precisamos de dar espaço ao erro e ao imprevisto. No ginásio, quando falhas uma rep, não desistes do treino nem te culpas durante três dias. Ajustas o peso, analisas a técnica e tentas de novo. Nas relações, temos de aprender a fazer o mesmo. Se alguém falha num ponto da tua checklist, volta a tentar. Se tens alguém que não te deixa desistir e te dá suporte na falha, por que motivo vais ignorar isso?
Ajustar as tuas expectativas não é desistires de ti. É, sim, deixares de parte os pormenores que não importam que só servem para te manter sozinho, e cansado. A longo prazo, o que conta é teres ao lado quem aguenta o teu ritmo quando as reps já custam. O resto fica para trás.
Talvez a melhor decisão que possas pensar é mesmo a de parar e descansar. Muitas vezes, o problema não são as pessoas que conheces, nem as apps de encontros, nem a checklist. O problema é que estás a tentar tomar decisões com o cérebro em modo de sobrevivência. Quando estamos descansados, somos mais pacientes, mais curiosos e muito mais tolerantes e atentos ao que foge do plano.
Recuperar o espaço mental é o treino que ninguém faz. Treina, come, dorme e desliga-te do telemóvel. Não te vais arrepender. Quando recuperas a tua energia, a tua checklist deixa de fazer sentido. Deixas de procurar falhas em tudo porque já não precisas que o outro seja a cópia do teu plano. Ninguém consegue dar espaço a outro quando já está no limite da frequência cardíaca. Percebes?
Estar no limite transforma qualquer detalhe insignificante numa falha imperdoável. Um atraso, ou um imprevisto tornam-se motivos para cortares o contacto, porque tu não tens paciência. O cansaço tira-te a perspetiva do que acontece à tua volta, passas a ver a relação com alguém como o treino carregado de exercícios acessórios, aqueles em que tu falhas sempre e não admites.
O desafio é simples: da próxima vez que conheceres alguém, deixa a checklist no bolso. Ou melhor, deita-a para o lixo. Esquece o guião. Para de analisar cada pormenor como se estivesses a ler um rótulo. O amor não acontece todos os dias, tens razão. Mas por muito que oiças isto, acontece fora do plano. Quando rasgas a checklist, quando não queres saber se aquela pessoa é o teu match ou não. O imprevisto é onde tudo acontece.
Deixa-te de coisas, se não tens problema de olhar ao espelho entre séries para ver o músculo a crescer, porque é que insistes em não ver o que pode estar à tua frente? Não queiras viver uma realidade que não é a tua, através de filtros que te escondem. Descansa, recupera a tua energia e quando te sentires bem, aprende a ver que há mundo fora do ecrã. Mesmo que tropeces em alguém que não esperavas, aproveita o treino, mostra-te como és, sem pressa, sem saltar séries. Tu não és perfeito, e a outra pessoa também não.