PLANO DE TREINO
A CARREGAR...
Há géneros musicais que parecem pertencer a uma determinada época. E depois há o rock.
Décadas depois de guitarras elétricas, riffs contagiantes e baterias explosivas terem começado a mudar para sempre a história da música, o rock continua vivo. Continua a encher salas, a juntar diferentes gerações e a fazer pessoas que nasceram em décadas completamente diferentes cantarem as mesmas músicas.
Ronnie Wood é talvez um dos melhores exemplos disso.
O guitarrista dos Rolling Stones regressa a Portugal no dia 14 de setembro para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde vai celebrar seis décadas de carreira.
O espetáculo percorre uma trajetória que passou por bandas como The Birds, Jeff Beck Group e The Faces, antes de chegar aos Rolling Stones, onde Wood se tornou uma das peças fundamentais do som da banda desde 1975.
Seis décadas de rock não são propriamente um percurso pequeno. E, ainda assim, a história de Ronnie Wood parece provar que algumas coisas simplesmente não perdem a força com o passar do tempo.
Porque o rock nunca foi apenas um género musical. É atitude, liberdade, irreverência, vontade de fazer barulho, desafiar regras e, sobretudo, continuar a divertir-se.
Mas o que torna o rock tão resistente ao tempo? E o que é que Ronnie Wood, com uma carreira que atravessa 60 anos de história da música, nos pode ensinar sobre essa capacidade de nunca perder o ritmo?
Antes de se tornar uma das caras mais reconhecidas dos Rolling Stones, o músico britânico já tinha passado por algumas das bandas mais importantes da história do rock. Começou a carreira nos The Birds, passou pelo Jeff Beck Group e pelos The Faces, onde tocou ao lado de Rod Stewart, até chegar aos Rolling Stones em 1975.
Desde então, a guitarra de Wood tornou-se parte do ADN de uma das bandas mais icónicas de sempre.
Mas a sua história não se resume aos Rolling Stones. Ao longo das décadas, manteve também uma carreira a solo, colaborou com inúmeros músicos e continuou a explorar diferentes facetas da sua criatividade.
Em 2025, lançou Fearless: The Anthology 1965–2025, uma antologia que percorre precisamente seis décadas de música e inclui quatro temas novos. É essa viagem pela sua carreira que estará em destaque no concerto de Lisboa, marcado para 14 de setembro, no Coliseu dos Recreios.
E talvez seja precisamente aqui que começa a ficar difícil separar Ronnie Wood do próprio conceito de rock.
Porque se há género que parece ter sido feito para desafiar regras, expectativas e até a passagem do tempo, é este.
O rock nasceu da vontade de fazer diferente. Misturou influências, rompeu convenções e transformou a guitarra elétrica num símbolo cultural. Passou por inúmeras fases, criou subgéneros, influenciou gerações e, mesmo quando muitos anunciaram a sua morte, encontrou sempre uma forma de voltar a aparecer.
Ronnie Wood acompanhou boa parte dessa história por dentro.
Esteve presente em diferentes momentos e movimentos do rock britânico, cruzou-se com alguns dos seus maiores nomes e continua, décadas depois, a subir ao palco para tocar as músicas que ajudou a construir.
No fundo, a longevidade da sua carreira diz-nos tanto sobre o músico como sobre o género que representa.
Se há uma coisa que o rock já provou várias vezes é que não gosta de ficar quieto.
Desde que apareceu, foi mudando de forma, misturando influências e dando origem a novos sons. Rock and roll, blues rock, hard rock, punk, grunge, indie… a lista é longa. E, pelo caminho, o género foi deixando de pertencer exclusivamente a uma geração para passar a fazer parte da cultura musical de várias.
É precisamente essa capacidade de se reinventar que pode explicar parte da sua longevidade e, até, o facto de ter direito a um dia em sua celebração.
O rock nunca precisou de soar sempre da mesma maneira para continuar a ser reconhecido. Pode trocar a guitarra elétrica por uma produção mais moderna, acelerar o ritmo, tornar-se mais pesado ou aproximar-se do pop. A essência continua lá: a energia, a atitude e aquela sensação de que alguma coisa está prestes a acontecer.
Por isso é que Ronnie Wood é um excelente exemplo dessa evolução. A sua carreira atravessa diferentes momentos da história do rock e diferentes formas de fazer música.
E talvez seja essa a verdadeira vantagem do género: não ter medo de mudar. Enquanto alguns estilos ficam inevitavelmente associados a uma determinada época, o rock consegue ser descoberto de novo.
Uma pessoa pode ouvir um álbum dos Rolling Stones lançado décadas antes de nascer e, ainda assim, encontrar ali alguma coisa que lhe diz respeito. Pode descobrir uma música através dos pais, de uma série, de um filme, de um vídeo no TikTok ou simplesmente porque alguém a colocou numa playlist de treino, por exemplo.
É também por isso que o rock não precisa de competir diretamente com cada nova tendência musical. Não tem de ser o som dominante de cada geração para continuar relevante. Basta continuar a encontrar novas pessoas dispostas a ouvi-lo.
Basta olhar para diferentes áreas para perceber que a idade deixou de ser uma fronteira tão rígida como costumava ser.
Há músicos que continuam a gravar e a fazer digressões (como Mick Jagger, por exemplo), artistas que continuam a criar, atletas que continuam a competir e pessoas comuns que descobrem novos hobbies, começam a praticar uma modalidade ou aprendem algo completamente novo já numa fase mais tardia da vida.
Cada vez mais, a ideia de que existe uma determinada idade para deixar de experimentar coisas começa a parecer estranha. E o envelhecimento ativo é cada vez mais importante.
Podemos começar a correr aos 40. Aprender a tocar guitarra aos 50. Voltar a estudar aos 60. Descobrir uma paixão pela fotografia aos 70. Ou simplesmente continuar a fazer aquilo de que gostamos sem sentir que precisamos de justificar a decisão.
E talvez seja aqui que a nossa ideia de envelhecimento esteja simplesmente desatualizada. Porque a realidade é que os avós de hoje não são os de antigamente.
Envelhecer pode significar acumular experiências, referências e competências que podem ser usadas para fazer coisas diferentes. Não é deixar de mudar. É mudar a partir de um ponto diferente.
Há uma diferença entre simplesmente passar o tempo e ter coisas que nos fazem querer sair da cama de manhã independetemente do avançar da idade.
Pode ser tocar guitarra, pintar, cozinhar, fazer exercício, viajar, escrever, jogar futebol ou qualquer outra atividade que nos dê aquela sensação de "é mesmo isto que eu gosto de fazer". Não precisam de ser grandes paixões nem de resultar em nada extraordinário. O simples facto de continuarem a fazer parte da nossa vida pode ter um impacto muito maior do que imaginamos.
Quando conseguimos manter esse tipo de ligação com aquilo de que gostamos, há várias coisas que podem acontecer.
Ter projetos, interesses ou objetivos que nos entusiasmem ajuda a dar estrutura aos dias e a sentir que estamos a caminhar em direção a alguma coisa.
Não tem de ser o próximo grande álbum ou uma digressão mundial. Pode ser aprender uma música nova, começar uma modalidade ou finalmente pegar naquele hobby que ficou esquecido numa gaveta.
Continuar a desenvolver uma competência, ultrapassar desafios ou simplesmente perceber que ainda somos capazes de aprender coisas novas pode reforçar a confiança que temos em nós próprios.
Muitas das coisas de que gostamos aproximam-nos de outras pessoas: uma banda junta músicos, um clube junta adeptos, uma aula junta desconhecidos que rapidamente passam a partilhar piadas, dificuldades e pequenas vitórias. Até um simples gosto musical pode ser suficiente para criar uma conversa.
No caso do rock, essa ligação é especialmente evidente. Um concerto pode reunir pessoas de diferentes idades e histórias que, durante algumas horas, partilham exatamente a mesma experiência. A música transforma-se numa espécie de ponto de encontro.
Aprender uma música, experimentar uma técnica diferente, criar alguma coisa ou simplesmente descobrir novos artistas obriga-nos a continuar curiosos. O cérebro gosta de novidade e desafio, o que significa que um hobby pode ser uma excelente desculpa para continuar a explorar ambos.
No fundo, tal como Wood, não precisamos de abandonar aquilo de que gostamos só porque o tempo passa. Podemos adaptar, experimentar, aprender de outra forma e até descobrir novos interesses pelo caminho.
Talvez seja por isso que Ronnie Wood seja uma figura tão interessante para falar de envelhecimento. Porque nunca deixou que a idade definisse o lugar que a música podia ocupar na sua vida.
Seis décadas depois de começar a carreira, continua a tocar, a criar, a colaborar e a subir ao palco. E, ao fazê-lo, representa também aquilo que tornou o rock tão resistente ao passar do tempo: a capacidade de manter a atitude mesmo quando as décadas vão passando.
No fundo, talvez o rock não se recuse propriamente a envelhecer. Recusa-se é a desaparecer.
E talvez devêssemos olhar para o envelhecimento da mesma forma. Não como uma linha que vai fechando portas à medida que os anos avançam, mas como uma oportunidade para continuar a escolher aquilo que nos entusiasma, desafia e faz sentir vivos.
Ronnie Wood vai levar essa atitude ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 14 de setembro. Para uns, será uma oportunidade de ouvir ao vivo um músico que faz parte da história do rock. Para outros, será a descoberta de um artista cuja carreira começou muito antes de nascerem.
Para todos, será mais uma prova de que algumas coisas não têm propriamente idade.