PLANO DE TREINO
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É verão, está calor. Aliás, está cada vez mais quente. O verão, tal como o conhecíamos está diferente. O ar sufoca, o sol resseca a pele, quase que a sentes “partir”. As temperaturas escaldam. Sim, sabemos que muitos vivem para esta altura, com 40º graus, mas, para outros não é bem assim. Com o calor intenso e cada vez mais frequente, o teu corpo torna-se mais frágil. Não responde com a mesma facilidade, tu sentes-te mais irritado, o cansaço é constante. Isto não é uma falha. É o teu corpo no limite, a tentar manter o equilíbrio e arrefecer como pode e o mais rápido possível.
O teu corpo, em condições de calor extremo, entra num estado de alerta permanente. Este estado não é só cansaço psicológico, é o teu organismo a pedir, desesperadamente, uma descida de temperatura. Biologicamente o teu corpo não está preparado para o ritmo que se vive atualmente nas cidades. Os centros urbanos são acumuladores de calor, com o alcatrão, a falta de sombras e a escassa vegetação. Juntam-se o efeito estufa do aglomerado de edifícios de vidro e betão, e a quantidade de veículos em circulação tornam as zonas urbanas mais quentes e com maior dificuldade em arrefecer.
Ainda é possível passar um verão mais fresco. Nas nossas aldeias. Isto é uma reflexão sobre recuperar o nosso ritmo e descansar nos tempos em que o calor não dá tréguas.
Para compreender a exaustão que sentimos, precisamos de olhar para “dentro”. O ser humano é homeotérmico, o que significa que o nosso corpo despende uma quantidade de energia para manter a temperatura corporal constante, algures nos 37°C. Quando as temperaturas ultrapassam consistentemente os 30°C ou 35°C, e as noites não refrescam, o nosso corpo entra em sobrecarga. É quase como se precisasse de um plano de emergência. Quando vivemos sob este stress térmico permanente, o nosso cérebro está a priorizar a sobrevivência. A falta de silêncio, o zumbido constante dos aparelhos de ar condicionado e o ruído das cidades acrescentam uma camada de stress acústico que impede o descanso.
Este impacto não se limita apenas ao que sentimos fisicamente, altera profundamente a nossa forma de estar e de agir. Quando a temperatura sobe, os nossos hábitos diários transformam-se, e o corpo entra numa lentidão quase forçada. O nosso comportamento torna-se, por norma, mais contido. Com o calor estamos a guardar a pouca energia que nos resta para nos mantermos funcionais. É um modo de sobrevivência silencioso que adotamos, sem darmos conta, quando o verão nos dita novas regras. Modo de sobrevivência? Ativado!
Temos que nos preparar e adaptar às temperaturas elevadas e às ondas de calor que são cada vez mais frequentes. Elas pedem-nos uma alteração de comportamento. Fisiologicamente, devemos respeitar o ritmo do corpo, ter em atenção às horas de maior calor, protegendo a pele e o corpo, com protetor solar e roupas leves e brancas, de preferência que possam bloquear o sol direto na pele, sempre que possível. E água, muita água. O sol é o mesmo, mas escalda mais a pele, corrói o corpo de uma forma que não sabíamos que conseguiríamos aguentar. Fugir para as aldeias é um exercício de adaptação. Ir à procura de locais onde a geografia e o microclima te permitam respirar fundo e descansar. Para isso, talvez tenhas que ir um pouco mais longe.
Quando nos deslocamos para as aldeias, não estamos apenas a mudar de geografia, vamos à procura do equilíbrio térmico longe da arquitetura moderna carregada de betão e vidro que só “acumulam” temperaturas mais altas. Mas, temos uma curiosidade para partilhar. A construção das casas nas aldeias, era pensada segundo uma engenharia térmica que mesmo hoje é difícil replicar nas novas construções. Podemos chamar-lhe “engenharia ancestral”. É um termo antigo, mas que seria tão atual se o conseguíssemos colocar em prática nas nossas cidades.
Nas aldeias portuguesas vemos muitas casas com paredes de pedra – o granito robusto ou o xisto escuro, porque estes materiais têm a capacidade de “guardar” o calor e atrasar a passagem através das paredes. Isto é, estes materiais têm uma capacidade natural de resistência ao calor, funcionam como um regulador natural da temperatura, mantendo o interior da habitação mais fresco. Para além da construção, a própria arquitetura das aldeias também foi pensada estrategicamente como resposta ao calor. As suas ruas estreitas, acabam por criar corredores de sombra permanentes com a passagem de correntes de ar mais fresco. Isto não é em vão! Esta traça arquitetónica, permite a circulação de ar, criando brisas naturais que baixam a temperatura ambiente. Se caminhares pelas ruas, vais sentir que o ritmo de vida abranda. Tens o silêncio, a ausência dos ruídos mecânicos e cronometrados das cidades, e o ar puro permite que o sistema nervoso não esteja em alerta constante. Só assim é que recuperas energia.
Agora é que nos fazes uma boa pergunta! A eficiência térmica das casas nas aldeias não é ao acaso. Podemos dizer que foi preciso muito estudo, planeamento, e uma observação rigorosa do clima local ao longo de séculos. Vamos lá saber como se construíam as casas!
Construção Ancestral, Quê?
É tão simples como quando entras no Fitness UP para treinar: o teu corpo precisa de uma gestão de esforço para recuperar. A casa, também gere o seu “esforço” térmico para se manter fresca. Quem diria que, as nossas aldeias já tinham isto tudo pensado?
O verão. O calor. Mas, um calor que é cada vez mais difícil de suportar. Ainda existem lugares de norte e sul onde é possível fugir ao calor extremo que sentimos nas cidades. Lugares quase intactos, na natureza, com ar puro, com áreas densas e arborizadas, com sombra, sem confusão, onde as coisas, não só pelo calor, mas onde se fazem as coisas com tempo. Com vagar. Isto não é sobre turismo, é sobre desligar e aproveitar novos lugares com gente dentro e histórias para contar. Eles fazem o tempo desacelerar.
1| De Pedra e Cal
E chegamos ao Interior, quase a tocar no Alto Alentejo. Aqui, como sabes, o calor é mesmo extremo. As temperaturas muitas vezes ultrapassam os 40º graus, é cada vez mais comum. Embora, o calor te “obrigue” a parar nas horas de maior calor, os dias começam com vagar e já amenos, mas o ruído que te acorda não vem do trânsito. Aqui o dia faz-se ao ritmo do que a terra permite. Em Sortelha (Guarda), as muralhas de granito guardam o fresco da noite. A sua altitude e implantação no terreno granítico são fundamentais para a sua regulação térmica. No fim do dia, o calor abranda e as portas abrem-se. Em Castelo Novo (Fundão), é a água que torna a aldeia mais fresca, permitindo que possas “correr” pelas suas ruas estreitas e à sombra. A localização na encosta da serra leva até ti água de nascente. Já em Castelo de Vide (Portalegre), a altitude desta aldeia permite ter um clima mais ameno e fresco do que as zonas circundantes.
Em qualquer uma das aldeias, tens praias fluviais próximas onde o acesso é fácil, e as esplanadas se enchem ao cair da tarde. Quando o sol abranda, as conversas se cruzam-se umas nas outras. Consegues ouvir? Estes são lugares para descansar e aproveitar o que importa.
2| Sol e Sombra
De braço dado ao Norte, e com um pé ainda no Interior. O que estas aldeias têm em comum é que a gestão térmica não é feita apenas pela pedra, mas também com a água corrente que atravessa as aldeias e a densa vegetação. A “engenharia” em Sistelo (Arcos de Valdevez), vai para além da casa: os socalcos das terras, são muros de suporte que, além da agricultura, funcionam como reguladores da humidade e da temperatura do solo. No Talasnal (Lousã), a aldeia “escondida” na serra. Como uma cota elevada de altitude e uma elevada densidade florestal, tem uma exposição solar reduzida, beneficiando de extensas sombras que criam um microclima onde a temperatura é mais baixa. E chegamos a Almaceda (Castelo Branco), esta aldeia tira partido da ribeira que a atravessa criando um corredor fresco na própria aldeia, fazendo a gestão do calor durante o dia.
Não é só o clima que muda, é a forma como o dia se desenvolve. Nestas e noutras aldeias, o "vagar" é estar em casa. O movimento, quando acontece, é quando o sol se põe, o das festas de aldeia ou o das romarias que ainda mantêm as tradições e costumes das suas gentes. Aqui, o tempo abranda, de propósito, para saberes que é tempo de parar.
3| Da Praia para a Serra
E, como não podia deixar de ser, rumamos a Sul. Aqui, sobretudo na Aldeia da Estrela (Mourão), perto do Grande Lago do Alqueva, usa a água como regulador de temperatura, para diminuir a amplitude térmica extrema típica desta região. Os dias correm pela sombra, não há ritmos acelerados. Há calma, o verdadeiro sentido de “vagar” começa ali. Quando chegares a Alcoutim do Cume (Alcoutim), vais ver que a proximidade do rio Guadiana e o relevo mais acidentado criam correntes de ar que dissipam o calor acumulado durante o dia, permitindo uma gestão térmica diferente do planalto alentejano. Já, em Alferce (Monchique), a aldeia mais a sul, como está em maior altitude faz com que a temperatura desça bastante assim que o sol se põe. Ao descer a brisa da serra de Monchique acaba por arrefecer o ambiente. Leva o casaco, está frio, diz a mãe. Nestas localidades, é necessário gerir o calor com o desgaste que ele traz para o nosso corpo.
Seja qual for a aldeia para onde vás, pensa sempre nos finais da tarde. O ritmo das aldeias muda. Surge o movimento. Sejam as festas do padroeiro da aldeia, aqui podes ver como é pertencer àqueles lugares. O viver das gentes “dali”, as conversas nas soleiras da porta, com os vizinhos ou com quem passa. Na cidade não tens isto. Tu não vais visitar estas aldeias, vais habitar nelas. Nem que seja por alguns dias. Ali, o mais importante é o que deixas para trás. Existe um verão diferente, onde podes não ter 5G em todo o lado, aproveita para desconectar e perceber que a notificação que vais receber é o som do vento nas folhas. Lá começas a andar mais devagar porque tudo à tua volta não tem pressa.
“Nem 8, nem 80”! A verdade é que quando falamos do verão, somos maioritariamente feitos de extremos. Estamos a viver os verões no limite da nossa resistência. Uma prova de esforço constante, durantes dias que não têm fim. Ir até uma aldeia, pode ser o plano de fuga para descansares. As aldeias, têm de facto, um ecossistema natural muito eficiente de gestão do calor. Se procuras o calor, há aldeias portuguesas onde o podes aproveitar, mas mais fresco, sem filas, sem confusão, e sobretudo com tempo. Rodeado pela natureza, ar puro, e mergulhos refrescantes que fazem inveja a muitas águas salgadas. Para. Respira fundo, sente a brisa longe das multidões. Da cidade à encosta da serra, nas aldeias, não há pressa, há vagar. Ali, ainda temos tempo. Porque há lugares onde ainda se dorme de janela aberta, anda-se devagar, por não há motivo para andar depressa. O calor não desaparece, mas abranda. Dá-te uma folga!